As pandemias silenciadas

Direitos Humanos Estamos a terminar o Inverno e, com o seu final, termina o período considerado mais crítico para a temível pandemia da Gripe A, uma das doenças (previsivelmente) mais “letais” e, consequentemente, mais mediatizadas.

Só para Portugal, as previsões estimavam que, a confirmar-se a pandemia, o nosso país poderia chegar a dois e até três milhões de casos! A doença seria tão letal que se cifraria em 75 mil o número de pessoas que seriam vitimadas mortalmente pela gripe suína! Números divulgados pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical.

A pandemia foi confirmada pela OMS – Organização Mundial de Saúde, em Junho de 2009. Mas segundo os últimos dados oficiais – final do passado mês de Fevereiro – em Portugal tinham sido registados 195 mil casos, havendo a lamentar 106 óbitos.

Importa, por isso, comparar com outros dados. Os números das chamadas doenças “negligenciadas”, “esquecidas” ou, como prefiro chamá-las; “doenças silenciadas”.

Nelas se incluem a malária, a cólera, a tuberculose, leishmaniose, hanseniase (lepra), as doenças do sono e de Chagas, ou dengue, que sofri na primeira pessoa, quando estive em Missão.

Os números: a malária mata, anualmente, uma média de 2 milhões de pessoas. São principalmente crianças e mulheres grávidas. Uma morte a cada 30 segundos.

O arbovírus que causa a dengue – com altos graus de mortalidade no caso de dengue hemorrágica – infecta, anualmente, 100 milhões de pessoas, principalmente na Ásia, África e América Latina. E o recente caso da epidemia em Cabo Verde mostra que o vírus está a chegar a lugares onde não era endémico.

O enviado especial da ONU na Luta Contra a Tuberculose, o ex-presidente Jorge Sampaio, continua a denunciar que o bacilo da Tuberculose ainda infecta uma média de 10 milhões de pessoas por ano e mata, por dia, 5 mil pessoas.

90% dos casos de Cólera estão em África. Durante os surtos mais graves, ocorridos recentemente em Moçambique ou no Zimbabwe, chegaram a morrer 3 mil pessoas por dia.

O VIH/Sida é mais mediático, mas a maioria da população talvez não tenha consciência de que só em África há, oficialmente, cerca de 30 milhões de pessoas infectadas. O número de casos não registados é bastante maior, mas esta cifra já dá cerca de 2,5 milhões de óbitos por ano!

Estes números realmente impressionam, mas o importante é que nos façam reflectir sobre os inúmeros dramas que, tão distantes dos países que criam as notícias, não fazem as manchetes dos jornais, rádios, televisões e acabam por cair no esquecimento.

Efectivamente, as “doenças silenciadas” são, na sua maioria, doenças infecto-contagiosas e parasitárias tropicais que atingem as regiões mais populosas, mas também as mais pobres do planeta. E a realidade é que os pobres não possibilitam grandes lucros. Daí que a indústria farmacêutica não mostre grande interesse na pesquisa e no desenvolvimento de medicamentos que permitam combater os flagelos daquelas epidemias. Muitos dos medicamentos usados são os mesmos que já eram conhecidos há 20, 30 ou até 50 anos atrás!

Curiosamente, a mesma indústria farmacêutica interessou-se rapidamente pela Gripe A. Fala-se até que pode estar envolvida na origem/disseminação do H1N1. Verdade ou não, o certo é que o valor das acções dos quatro gigantes da indústria de vacinas — GlaxoSmithKline, Novartis, Sanofi e Baxter — cresceu, em média 35%, desde Junho de 2009. Com a venda de 600 milhões de doses de vacinas contra o H1N1, as mesmas empresas já embolsaram cinco mil milhões de euros. Sem falar nos milhões de lucro que vieram da comercialização de antivirais, máscaras e desinfectantes para as mãos.

Tudo isto é, no mínimo, curioso… E deveras revoltante!

Até 2015, um dos 8 Objectivos de Desenvolvimento do Milénio prevê um investimento generalizado no combate ao VIH/SIDA, Malária e outras doenças graves. É um repto a aceitar! Porém, julgo que nada se conseguirá se a Opinião Pública não estiver sensibilizada e não conseguir pressionar autoridades, empresas farmacêuticas e outros organismos mundiais que possam, efectivamente, ajudar a combater as verdadeiras pandemias. Pandemias, essas sim, bem sérias e que, “silenciadas”, continuam a fazer milhões de vítimas.