O cardeal Ennio Antonelli, italiano, 75 anos, é o presidente do Conselho Pontifício para a Família, estrutura do Vaticano para a promoção da família. De passagem por Portugal, onde participou num congresso sobre a família, foi entrevistado por Henrique Matos, da Agência Ecclesia. O cardeal fala do encontro mundial das famílias, que vai decorrer em Milão, de 30 de maio a 3 de junho, e do carácter insubstituível desta comunidade para a saúde e coesão social. Por outro lado, “à medida que empobrece a qualidade das relações familiares, cresce também a necessidade de consumir coisas”, afirma o cardeal, nesta entrevista em consonância com as preocupações pastorais da Diocese de Aveiro, centradas na família, e quando se prepara a Festa das Famílias (Calvão, 20 de maio).
O Encontro de Milão tem como tema: A Família, a Festa e o trabalho… o que vos levou a escolher este tema?
É um tema muito atual porque a família o trabalho e a festa estão interligados. A família depende do trabalho, basta pensar que muitos jovens atrasam o seu matrimónio porque não têm trabalho. Também as necessidades e ritmos da família e as necessidades e ritmos do trabalho produtivo se tornam muitas vezes difíceis de conciliar. Depois, a festa surge como algo complementar ao trabalho, ainda que se note menos. Importa saber que o homem não vive apenas do trabalho, também não vive só de pão, vive também de relações e relações gratuitas e que são um bem em si mesmas. Por exemplo a oração, os afetos familiares, a amizade, a solidariedade, os jogos, o desporto, a arte, o contacto com a natureza, a poesia, a música, a dança e tantas atividades e tantas relações gratuitas que são importantes para a vida das pessoas, para uma vida digna do homem.
Pensamos que hoje é importante acentuar estes três elementos. Basta pensar nisto, que também a festa como o trabalho condicionam muito o comportamento da família. Se a festa e o domingo são substituídos por tempo livre que é individual e móvel durante a semana, ao passo que a festa é comunitária, a festa ocorre num dia específico, é um fator de coesão, de união para a família e para a comunidade. Ao passo que o tempo livre individual se torna fator de desagregação, seja da família, seja da comunidade. É toda uma problemática para a qual queremos convidar a refletir, e quero acrescentar que o Encontro de Milão tem valor em si mesmo, são famílias de tantos países do mundo que se encontram, que trocam conhecimentos, que fazem amizades, que partilham experiências. Trata-se do Povo de Deus, da Igreja, que vive a sua unidade e a sua universalidade em torno do Papa.
Este não será apenas um momento de Igreja ou um encontro “ad intra”, mas, presumo, pretenderá também colocar a família e os problemas que a condicionam, no centro do debate cultural e social dos nossos tempos?
Os temas de “per se” não são especificamente eclesiais. É certo que para os cristãos são temas importantes do ponto de vista da fé, mas são temas com valor humano que valem para todos. A família não é uma realidade especificamente eclesial, pertence a todas as tradições a todos os povos e, antes de mais, é importante refletir sobre o seu significado antropológico. E depois o trabalho, que é uma realidade universal, e também a festa, pois existem vários tipos de festa, mas todos os povos tiveram sempre esta necessidade da festa, são valores antropológicos fundamentais. Não é por acaso que no início da Bíblia, no primeiro capítulo e início do segundo, se fala destes três valores como dons, como bênçãos dadas por Deus criador a Adão e Eva e a toda a humanidade.
A família é fundamental para a saúde e a coesão social…
Sim, para a coesão da sociedade para o desenvolvimento da sociedade, e direi que a família é insubstituível. Existem hoje tantos dados estatísticos que confirmam esta intuição, esta experiência espontânea do senso comum da história humana. É fácil perceber que uma família dá à sociedade novos cidadãos, novos trabalhadores, novas pessoas humanas. E não só, também as educa, enriquece-as, transmite-lhes um património de valores éticos e de virtudes sociais, valores culturais… Basta pensar na própria língua, ela é transmitida na família, os valores religiosos… Então, direi que a família dá à sociedade novas pessoas, possibilita a renovação geracional, e transmite também o património moral e cultural da nação e do povo. Isto é fundamental. E depois existem tantas outras funções que pertencem à família, mesmo no plano económico.
A família é, no âmbito económico, um amortecedor social quando falta o trabalho ou na criação e condução de pequenas empresas familiares que são o nervo da economia de muitos países.
Este momento de crise económica representa um perigo para a família, porém não poderá constituir também oportunidade para esta se centrar em realidades fundamentais e ultrapassar uma certa ambição pelo efémero que acontece nas épocas de maior crescimento económico?
Os indicadores sociais revelam que à medida em que empobrece a qualidade das relações familiares, cresce também a necessidade de consumir coisas, e assim cresce também o endividamento das pessoas, das famílias e também do Estado. A crise económica também obriga a repensar este modelo de desenvolvimento, este estilo de vida… descobrindo o valor do relacionamento entre as pessoas, a importância da qualidade dessas relações, talvez cheguemos a um patamar de menor consumo. É certo que o nosso modelo económico assenta na máxima produção e no maior consumo, mas não há muito futuro nisto. É necessário repensá-lo e reequilibrar as coisas.
Esteve em Portugal para participar num Congresso da Família: também aqui neste país a família enfrente muitos desafios e necessita redescobrir a sua vocação…
Se olharmos os indicadores sociais, também os jovens colocam a família no topo dos seus desejos e dos seus valores, uma família estável que depois não conseguem concretizar. Importa ver como ajudar a formação e a estabilidade destas famílias. A política, a economia, a cultura, deverão procurar caminhos que traduzam as preocupações profundas dos homens, mais do que impor modelos que são artifícios para estimular o desejo.
Repare que as pessoas que se dizem mais felizes são os casados que têm uma família normal, muito mais que os solteiros, por exemplo. Mas depois o que é propagandeado é o modelo dos solteiros e muito mais o dos separados. Pensa-se que com o divórcio se resolvem os problemas, mas não é assim, não é verdade. Por vezes acabam é multiplicados.
[Para saber mais do Encontro Mundial
das Família, ver www.family2012.com/pt/]
