Às voltas com a T.L.E.B.S.

Colaboração dos Leitores A Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário, adiante designada TLEBS, traduz a tentativa de implantar, no terreno da educação linguística, uma renovada linguagem científica da língua portuguesa, a partir do trabalho de investigadores e linguistas ao longo dos últimos anos, até porque a nomenclatura que tem vigorado, neste domínio, já vem de 1967.

Ora, se este pressuposto parece ser lógico e fundamentado, já o caso muda de figura quando atentarmos no modo como o Ministério da Educação planeou e está a coordenar este processo. Estamos, mesmo, perante um case study de “como não se deve planear uma alteração”. Vejamos apenas alguns pontos, de um universo que poderia ser bem mais vasto.

Começou-se esta reforma da terminologia linguística de 1967 pelo Ensino Secundário, de cima para baixo, sem se perceber bem porquê, sem uma justificação lógica. Talvez porque isso interessasse aos investigadores, lhes facilitasse a vida ao estudar os termos a aplicar sem que, como habitualmente, se investigasse na escola de todos os dias, do 1º ao 3º ciclos, onde a terminologia terá que começar a ser percebida e apercebida. À boa maneira portuguesa, começa-se a casa pelo telhado, sem fixar as bases da estrutura! À boa maneira portuguesa, investiga-se o que está mais à mão e mantém-se a larguíssima distância entre os centros de investigação e a realidade educativa, as escolas, os alunos!

Não seria mais lógico que se começasse, gradualmente e de forma consistente, de baixo para cima, do 1º ciclo ao Secundário e, dessa forma, todos os alunos aprendessem, logo de início, a terminologia que teriam que usar?

Mais: tem havido falta de informação, clara e abrangente, sobre o período de aplicação da TLEBS nos diversos níveis de escolaridade. Agora, estão a aprendê-la os alunos dos 3º, 5º e 7º anos de escolaridade, para o ano serão os dos anos sequenciais. O que equivale a dizer que, neste momento, para uns há “determinantes”, para outros há “determinantes e quantificadores”; para uns há apenas o “sujeito”, para outros o “sujeito pode ser nulo, nulo expletivo, nulo indeterminado, nulo subentendido, simples e composto”; para uns há apenas os “complementos circunstanciais de tempo, lugar e modo”, para outros há também “o modificador preposicional, o modificador adverbial, o modificador frásico”; para uns os nomes são apenas “próprios, comuns, colectivos, concretos e abstractos”, mas para outros são também “contáveis e não contáveis, massivos e não massivos, humanos e não humanos, animado e não animado”; para uns os advérbios podem ser de negação, de tempo, de lugar, de modo, de afirmação e de quantidade, para outros ao advérbios são também adjuntos, disjuntos e conectivos; para uns o enriquecimento do léxico podem fazer-se, entre outros modos, pela derivação e pela composição de palavras, para outros o processo morfológico pode ser realizado pela afixação, pela derivação e pela composição”; e por aí além.

Mas há mais; graças à falta de informação reinante, à descoordenação geral, há escolas a aplicar já a TLEBS, outras não; há professores que já têm alguma formação (pouca) sobre a TLEBS, a grande maioria não; há quem entenda que a TLEBS é para aplicar e é para o futuro, há quem veja esta dinâmica como mais uma moda, passageira.

A formação oferecida foi diminuta e localizada longe das escolas. As equipas de Especialistas que estão a trabalhar na TLEBS fazem-no em separado, sem uniformização completa de alguns conceitos, pois são evidentes posições científicas diferentes nalguns casos. Não há coordenação no processo, que se prova, também, pela ausência de uma Gramática de referência para as escolas, uma vez que as editoras não têm garantias de qual é, afinal, a terminologia correcta e definitiva; surgiu uma ou duas, mas discordantes em alguns pontos. Os manuais adoptados não incluem a TLEBS, pelo que todo o material de informação e apoio tem que ser criado de raiz, com acréscimo de custos para escolas e alunos. Não tem havido clarificação quanto à repercussão temporal destes novos conceitos nos exames dos alunos, não se sabendo que alunos e em que anos a TLEBS aparecerá nas provas nacionais. A terminologia da TLEBS, em geral, amplia-se e complexifica-se o que, na minha modesta opinião, não vai ajudar as nossas crianças e jovens a “amar a nossa língua”.

Entretanto, no terreno, nas escolas, os professores são vítimas, mais uma vez (como tem sempre sido com esta equipa ministerial), de um planeamento desta reforma completamente anárquico, angustiam-se, procuram informar-se do alcance e profundidade científica da TLEBS, por seus próprios meios, para não prejudicar os alunos. Mas, como sempre, se alguma coisa não correr bem, serão eles os culpados, o bode expiatório, os “que não trabalham” e se amotinam contra os esclarecidos ministeriais.

Assim, não, Portugal! Assim, não, Ministério da Educação! Assim, não!

Vítor Manuel Tavares Martins