A asfixia do pensamento por estrangulamento é demasiado escandalosa para se usar impunemente em democracia. O problema é a subtil redução do campo respiratório, de modo que, sem quase se dar por isso, nos tornamos incapazes do dinamismo da respiração da liberdade. E acabamos inertes, por falta de oxigenação suficiente das nossas ideias e práticas sociais e políticas.
Sem discutir tecnicamente as medidas tomadas em relação a alguns meios de comunicação, os famigerados projectos de lei sobre a concentração dos meios de comunicação social, certo é que é mais do que evidente a bajulação de alguns e a dificuldade de afirmação de outros. Há muitas formas de matar moscas – diz-nos o povo e com razão.
Uma autoridade reguladora da comunicação social tem todo o sentido, para evitar precisamente o insulto gratuito, a invasão da intimidade legítima de cada um, a libertinagem na expressão, a corrupção das legítimas instituições… O que reclama uma capacidade de isenção e uma força pedagógica de alto nível!
A democracia é débil, porque vivida pelos humanos precários. Daí, todos os riscos que corre de ser asfixiada: por interesses partidários, por cioso apego ao poder, por inépcia de oposições construtivas, por alienações veiculadas pela comunicação social, por uma visceral cultura de indiferença…
Está nas mãos de todos – embora mais nas de uns do que nas de outros – manter pura a atmosfera da democracia, exercitar esses pulmões da verdade, que lhe conferem vigor e preservam de crispações e conflitos inúteis, para pôr em cima da mesa o que sejam os reais problemas do País, os contributos concertados para lhes encontrar as soluções adequadas…, em vez das artimanhas numa procura cega do poder, mais tecidas para inibir ou derrubar adversários do que para a busca do bem comum.
Estamos chamados, nestes tempos mais próximos, a uma redobrada atenção aos ditos e factos, a um olhar penetrante sobre as pessoas e os projectos anunciados, para encontramos quem nos conduza no reforço da democracia, em vez de nos retirar o que ela tem de mais precioso: a possibilidade de sermos cidadãos de pleno direito e convicta e lúcida participação na vida cívica.
