Assaltos à Igreja

Em cima da linha A Igreja católica é, frequentemente, acusada de possuir grandes riquezas. “Devia desfazer-se dessas riquezas em benefício dos pobres e dos que passam fome. Resolver-se-iam problemas vitais da humanidade.” Assim o pensam, assim o dizem alguns!

Na verdade, a Igreja conservou e preservou ao longo dos séculos um valioso património do qual se pode orgulhar toda a humanidade. Se não fosse a Igreja e os seus valores artísticos, o mundo estaria realmente mais pobre. Por isso, há hoje uma preocupação muito grande em cuidar e preservar os patrimónios restantes, depois de sucessivos “raptimónios” – só muda a posição das letras – levados a cabo quer pelos Estados, quer por muitos particulares oportunistas.

As igrejas, quase todas, têm riquezas patrimoniais, ainda que, na generalidade, não tenham riquezas activas. Isso vê-se claramente quando lançamos o nosso olhar sobre o estado de conservação dos seus edifícios. É claro que nem por sonhos queremos perder as riquezas do passado, antes cuidamos da sua preservação, ora mantendo as igrejas fechadas ao público, ora utilizando os processos novos de segurança e vigilância permanentes, ora através de inventariações adequadas.

Porém, ainda que este tema pudesse ter um outro desenvolvimento eu quero partir para outra perspectiva.

Na verdade, a Igreja têm algumas riquezas, mas, muito para além delas e sem elas, importa ter em conta que a Igreja é uma riqueza!

É uma riqueza de valores, de projectos, de pessoas, de desafios, de superação, de vitórias. É uma riqueza histórica de vidas alimentadas por ideais superiores e por realizações salvíficas em todas as gerações, apesar de nem sempre serem acolhidas como riqueza e nem reconhecidas como vitórias.

E também há gente que nos quer roubar esta riqueza que, sendo um património espiritual, é, sem dúvida, uma energia transformadora: Sal da terra e luz do mundo!

Também não é por aqui que eu quero ir.

Nós, os cristãos católicos, somos uma maioria de baptizados, não muito convictos, incapazes e descrentes para enfrentar novos desafios, fechados e agarrados a uma fé pouco esclarecida e, sobretudo, pouco aberta à renovação. Pouco conscientes das riquezas da nossa fé, geramos superficialidade, desinteresse e abandono. Possuídos, os sobreviventes, do medo de perder o que, se calhar, já está perdido, permitimos verdadeiros assaltos à riqueza da Igreja.

Há algum tempo atrás, alguém me dizia que a Igreja está “arrumada”, que a igreja só serve para alimentar as beatas, que a Igreja está cheia de analfabetos, ignorantes e gente sem capacidade intelectual. Respondi que a Igreja é somente para todos aqueles que a querem. Quem a não quer que a deixe. Se uma instituição não serve os meus objectivos… Mas a conversa seguiu. Perguntei então à minha interlocutora se era casada, tendo ela respondido que não. Avancei. E quando casares…?

Não acabei a frase porque a resposta veio como um furacão: – “Claro que vou casar na igreja ou alguém me proíbe. Sou católica!” – Apostólica, romana, acrescentei eu!

Noutra circunstância, era um pedido de inscrição para o baptismo, e ainda antes de eu dizer o que quer que fosse, logo, à queima-roupa, me foi disparado este tiro: – “Olhe que eu não ando na igreja a bater com a mão no peito, e depois, … são os piores!” Disparou mais uns quantos tiros de pólvora já queimada, para, em seguida, sem me deixar falar, rematar: – “Mas baptiza o meu filho ou não?”

Secamente, mas muito calmo, respondi: – “Quer então que o seu filho entre no rol dos piores? Mau gosto!”

É aqui que ela bate! Situações destas são autênticos roubos feitos à Igreja! Assaltos à maior e mais valiosa riqueza da Igreja: proporcionar esta riqueza a quem não a aprecia ou mesmo a quem, claramente, a rejeita, significa “dar pérolas a porcos” ou entregar o ouro ao bandido.

Quantos baptismos, comunhões, crismas, casamentos, confissões se fazem sem qualquer preparação, sem convicção religiosa, até mesmo sem fé, apenas porque se pretende atingir determinado objectivo iludindo-se a si próprios e aos outros!

E tudo isto com a complacência de muitos daqueles que, tendo a missão profética de promover, guardar e vigiar pela segurança da fé e da doutrina, preferem dar uma simpática e doce colher de mel, em vez de criar condições que permitam encontrar caminhos de crescimento e responsabilização. Digam-me, e concordo, que com vinagre não se apanham moscas; mas valerá a pena investir, quando há sinais notórios de falta de fé e de seriedade?