A proposta é, no mínimo, suspeita. Trocar a soberania nacional por um resgate de dívida ofende a dignidade de um povo, humilha a identidade de uma nação!
Parece cada vez mais certo o dito do Padre António Vieira: “Quem pede escraviza-se”. Demonstra-o à saciedade o panorama dos países europeus. Apesar da “unidade monetária”, uns são pedintes – muitos! – outros são credores; uns debatem-se com futuros esmagados pelo risco dos céus plúmbeos da insolvência, outros tecem estratégias para esgotar até à medula o esforço dos pobres…
É verdade que quem pede tem obrigação de saber gerir o seu “resgate”, para não se tornar parasita social. E quem empresta está no direito de estabelecer algumas condições que permitam avaliar essa gestão, para que o empréstimo não alimente vícios, antes seja uma oportunidade de regeneração. Mas, daí até se substituir ao devedor, entrando pela sua casa dentro e anulando a sua personalidade, vai uma distância abissal.
A Europa não anda por bons caminhos, não está entregue a bons credores. Os instintos de supremacia e domínio não se apagam em décadas, nem porventura em séculos. Sobretudo se a proximidade – união?… – criada assenta em critérios sociais e políticos concertados sem convicções, sem valores superiores. E, quando se esquece a matriz cultural, os valores comuns de todos os intervenientes, facilmente estala o verniz dos tratados.
Não é com um polícia junto de cada cidadão que se educa para a solidariedade e para a paz. A segurança resultante se frustrará no primeiro momento de distração de qualquer dos intervenientes. Não é com um gestor externo a governar as finanças de um país que se construirá o compromisso mútuo de bem administrar o que é preciso para a vida, para o futuro de todos!
O Papa Bento XVI, na sua encíclica Caritas in Veritate (n.º 53), citando João Paulo II, na Centesimus annus, adverte-nos: “A Humanidade inteira aliena-se quando se entrega a projetos unicamente humanos, a ideologias e a falsas utopias”. E prossegue, inspirado no mesmo antecessor, na Evangelium Vitae: “A Humanidade aparece, hoje, muito mais interativa do que no passado; esta maior proximidade deve transformar-se em verdadeira comunhão. O desenvolvimento dos povos depende sobretudo do reconhecimento que são uma só família, a qual colabora em verdadeira comunhão e é formada por sujeitos que não se limitam a viver uns ao lado dos outros”.
Numa verdadeira família, pedem-se contas, mas não se substituem responsabilidades! E só é verdadeira essa família, se o conhecimento e reconhecimento mútuos se radicam numa dignidade comum. O que pressupõe consciência da identidade própria e humildade para acolher a do outro. E, sem reconhecer um Fundamento que dá sentido à pessoa, à família e à sociedade, não será fácil sair de labirintos de interesses mascarados de “ajuda”.
Se a Europa “unida” voltar às fontes dos seus “progenitores” e as suas nações não renegarem a inspiração evangélica das suas origens, será possível uma outra dinâmica que nos conduza a um futuro de esperança.
