“Até onde pode ir o infinito”? A pergunta foi o mote para ouvir as reflexões existenciais do Bispo e as certezas e hipóteses do cientista
“Até onde pode ir o infinito?” À volta desta questão dialogaram o teólogo e o cientista: D. António Marcelino, “uma referência de cidadania”, nas palavras de Hélder Castanheira, que moderou a «conversa», e Carlos Fiolhais, o professor de Coimbra que é o autor científico português mais citado a nível mundial (critério especialmente apreciado em ambientes académicos). Aconteceu na Universidade de Aveiro, no dia 11 de Março.
Comecemos pelo cientista, embora tenha falado primeiro D. António Marcelino. Carlos Fiolhais evitou falar do “infinito teológico” para se dedicar ao infinito matemático (algo que uma criança pode atingir quando se apercebe de que pode acrescentar sempre mais números àquele até ao qual sabia contar) e ao infinito físico. Quanto a esta segunda infinitude, as teorias não são consensuais. “Dizia Galileu que o livro da natureza está escrito em linguagem matemática”, lembrou o professor, “mas se todos aceitam o infinito matemático, nem todos aceitam o físico”. As discussões dividem-se entre estarmos num universo fechado ou aberto no espaço e no tempo. “Einstein pensava que o universo era fechado, à maneira dos medievais. Mais tarde reconheceu que foi o maior disparate da sua vida”, afirmou Carlos Fiolhais, lembrando a seguir uma frase célebre do maior cientista do séc. XX: “Só há duas coisas infinitas: o universo e a estupidez. Mas em relação à primeira, não tenho a certeza”.
Fiolhais considera ser mais razoável aceitar o infinito do espaço e do tempo no sentido do futuro: “O universo começou há 15 mil milhões de anos. O tempo é infinito para a frente, não para trás”. E realçou que hoje não há alternativa credível ao “Big Bang”, a teoria que refere que na origem do universo esteve uma grande explosão que desencadeou aquilo que conhecemos como espaço e tempo. Antes disso… Não faz sentido, sequer, falar de um “antes”.
Ânsia de infinito
“Não esperem de mim uma reflexão de cientista, mas de crente”, afirmou D. António Marcelino, que logo acrescentou uma resposta à pergunta inicial: “Até onde me leva o infinito? Até onde eu o levar”. O Bispo emérito de Aveiro partilhou uma visão existencial da questão: “A fé é a chave que abre portas ao infinito. Levamos connosco a ânsia do infinito. Há uma força que me leva sempre mais além. «Sempre mais e melhor», diziam os latinos. «Ultreia», «mais além», diziam os peregrinos”. “Para o crente – disse, reportando-se ao encontro de S. Paulo com os atenienses –, não é difícil a ciência de ser de estirpe divina. Todos temos capacidades inexploradas. O tempo não mata as capacidades criativas (…). O valor das pessoas não está nas oscilações de mercado. Jesus Cristo pôs o homem no cento do universo. Por isso, à pergunta «até onde me leva o infinito», respondo: «Muito longe, se não mutilar o que vai dentro de mim»”.
D. António Marcelino acrescentou exemplos de toques no infinito: o de Póvoa dos Reis, padre e cientista, que nas algas microscópicas da Ria e do Vouga vislumbrava as maravilhas de Deus Criador; o dos missionários perseguidos no Sudão, que, perante a pergunta de Paulo VI, «E agora, o que podem fazer?», respondem: «Cuidar da saúde e voltar para o Sudão»; o de Madre Teresa de Calcutá, que de um recolhido na rua, ao acordar numa cama lavada e com os cuidados das religiosas, ouve: «Isto é o céu? Vós sois deuses?», e lhe responde: “Não, tu és Deus”; o de Santo Agostinho que acaba por encontrar nele próprio o que muito procurara no mundo…
“O sentido divino da vida humana é a resposta para o infinito”, rematou D. António, que acrescentou ainda que “é preciso ensinar a não dizer «não sou capaz»” e a “dar um pontapé no impossível”.
O infinito matemático e físico são científicos, mas praticamente indiferentes para o sentido da vida. O infinito teológico escapa à ciência, mas é o único que altera a visão humana de todas as coisas, do universo. “Até onde nos leva o infinito? Até onde quisermos”.
J.P.F.
