Auschwitz, o triunfo do Amor

Poço de Jacob – 123 Auschwitz é o nome alemão de uma povoação polaca que se chama Oswiecim. Nesse lugar, os polacos, por volta de 1941, tiveram de abandonar as suas casas devido à invasão alemã e construir um campo de concentração alemão em terra polaca, que se destinava ao extermínio programado dos judeus, ciganos, Testemunhas de Jeová, homossexuais, muitos cristãos e políticos, doentes mentais… Grande parte eram judeus, provavelmente mais de um milhão, fossem de fé judaica ou não. Ali morreram milhares de judeo-cristãos como Edith Stein, que é Santa Teresa Benedita da Cruz.

O campo não era só um. Eram três. O Auschwitz 1, que tinha sido um quartel de tijolos vermelhos, e onde morreram mais homens, políticos, padres, como S. Maximiliano Maria Kolbe. O campo Auschwitz-Birkenau, famoso pelo seu portal, imortalizado nos filmes de cinema, e para onde se dirigiam comboios de gado carregados de famílias, presas pelo único crime de existirem e serem de origem judaica, tiradas dos seus lares, de vários países da Europa, como França, Holanda, Itália, Alemanha, Hungria, Áustria… Aí se desenvolveu a limpeza da raça, como diziam os seguidores de Hitler, com a invenção terrível das câmaras de gás, onde morriam grupos inumeráveis de pessoas de todas as idades, em simultâneo, em quatro quartos da morte.

Há quem pretenda negar a existência, mas a evidência está ali e bem documentada pela organização Allgemeine-SS que era tão monstruosa como o monstro que servia. A crueldade humana era requintada. Não há palavras suficientes para descrever o que ali se viveu.

O campo Auschwitz 3 era a fábrica anexa, onde a mão de obra era usada para a guerra ou os despojos dos assassinados eram usados para fertilizante…

Vou lá todos os anos. Gosto de entrar naquele santuário da dor e andar pelos cantos daquele mundo que vive da memória e da lágrima. Gosto de tocar as pedras da rampa da seleção e chorar os mortos juntos aos monumentos espalhados pelo campo. Gosto de ver as pessoas curiosas em silêncio, apesar de serem milhares, e a sua reação diante do horror que se pode tocar, ali, ainda hoje. O respeito impera! Gosto de deixar a minha pedrinha de homenagem, como fazem os judeus, e desfiar por ali o terço do rosário como fizeram tantos padres que ali morreram, tantos cristãos. No carregamento de Edith Stein, o comboio levava da Holanda quase mil cristãos, entre leigos, padres e freiras, que as testemunhas, como Etty Hillesum, que ali também morreu, diziam ver rezar seus terços em grupo ou a sós…

Mas, o que gosto mais de fazer ali, naquele lugar visitado pelos últimos papas, é meditar no triunfo do Amor. O ódio estava por toda a parte nos gritos dos guardas, homens e mulheres da Gestapo. Mas, muitos sobreviventes contam que, no meio de toda aquela confusão, no meio de esperas de dias pela vez de entrar na câmara de gás, os gestos de amor multiplicavam-se, vindos de imensos anónimos que ali deixaram suas cinzas: ora a rapariguinha que ajudava a velhinha a descer do comboio e a abraçava contra o seu peito para que não tivesse medo, ela com medo também, ora aquele cavalheiro que ajudava a senhora carregada de filhos a levar um ou outro bebé no caminho para a morte, com palavras de conforto que ele também precisava de ouvir, ora o sorriso para a criança assustada com os gritos e o latir dos cães, ou aquele que tirava o seu único casaco para que o seu colega da fila da morte não sentisse tanto frio com a neve que caía, ou a carícia suave de imensas pessoas para as aconchegar na sua dor…

Os gestos de amor eram impercetíveis, mas houve quem os registasse e nos falasse deles porque eram inumeráveis, imensos, diários e edificantes… Era a resposta de corações nobres e maravilhosos que não se deixaram endurecer diante da crueldade e que responderam com o sorriso de Deus, onde o demónio fazia a sua festa. Era o triunfo do Amor na maioria dos corações. Muitos viviam na luta por sobreviver, claro, sobretudo os selecionados para trabalhos forçados na tal fábrica, mas o Amor ali era maior do que a Morte. E quando piso Auschwitz ouço a voz do Pai a dizer para aqueles milhares de pessoas que acabamos por sentir nossas: Pronto, já passou, entra na alegria do teu Senhor. E embora muitos se revoltem com a ideia de ter sido possível aquilo, quem ali vai para rezar e meditar sai reconfortado, pois onde o demónio criou o seu deserto, o Deus que não abandona o seu Povo cultivou o seu oásis, nos gestos nobres e fortes de quem acreditava no triunfo do Amor.

Vitor Espadilha