Auto-complacência de católicos?

Questões Sociais Grassa, nos meios católicos, uma forte condenação do Governo e dos políticos em geral. Por contraste, esses mesmos católicos enaltecem, até ao extremo, a acção da Igreja no domínio social. Chegam mesmo a afirmar, com resquícios de teocracia, que a Igreja realizaria uma acção social muito mais correcta se, porventura, dispusesse das verbas destinadas, pelo Estado, às políticas sociais.

Com fundadas razões, quase toda a gente reconhece que é notabilíssima a acção da Igreja no domínio social, muito embora seja relativamente baixo o número de católicos envolvidos nelas. Mas, feito esse reconhecimento, justifica-se perguntar: estarão os católicos, sobretudo os leigos, à altura das suas responsabilidades neste momento? – A resposta implica a ponderação dos vários domínios de acção recomendáveis. Implica também o conhecimento do número de católicos efectivamente comprometidos e da sua vinculação consequente aos princípios da doutrina social da Igreja. Sendo impossível a consideração de todos estes aspectos, limito-me apenas ao registo de quatro insuficiências que, adicionadas a outras, aconselham maior recato dos católicos na sua auto-satisfação.

Uma insuficiência respeita aos grupos paroquiais de acção social. É muito elevado o número de paróquias em que eles não existem. Consequentemente, é escassa a acção social básica, destinada a assegurar: a primeira sinalização dos casos sociais; a prestação das ajudas possíveis, directas e imediatas; a mediação junto dos serviços profissionalizados competentes; e o acompanhamento de cada caso até à respectiva solução. Uma outra insuficiência respeita à falta de tratamento estatístico dos casos sociais atendidos pelos grupos e pelas instituições de acção social; esta lacuna redunda na perda de uma informação que poderia ser das mais relevantes sobre as situações de pobreza e exclusão social; e torna impossível uma consciência eclesial, bem fundamentada, dos problemas sociais. A terceira insuficiência consiste na falta de diálogo social entre os católicos; diálogo, sobretudo, entre diferentes opções políticas e entre trabalhadores e empresários. Daqui resulta que os católicos não procuram a base de orientação comum, no meio das divergências, não procuram os consensos possíveis e não oferecem, à sociedade e ao Estado, propostas concertadas para a solução dos respectivos problemas.