Foi no longínquo ano de 959 que Aveiro (então, com a designação de Alauario) surgiu pela primeira vez num documento oficial, documento esse que foi o testamento da Condessa Mumadona Dias.
A passagem do 1050.º aniversário dessa data será comemorada em Aveiro, no dia 26 de Janeiro, com uma sessão evocativa e a inauguração das exposições intituladas “Dos artefactos à escrita” e “BI Aveiro”.
A Sessão Evocativa Oficial do Município irá decorrer na Capitania, a partir das 17 horas. A oradora convidada será Maria Helena da Cruz Coelho, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Após a sessão, será inaugura-da a exposição “Dos artefactos à escrita”, que ficará patente ao público até ao dia 5 de Abril, na Capitania. A mostra é comissariada por Paulo Morado, Sónia Filipe e Pedro Enrech Casaleiro, da Universidade de Coimbra.
Esta exposição, constituída por peças recolhidas em intervenções arqueológicas, revela alguns dados interessantes sobre a ocupação humana na região de Aveiro, desde o período do Paleolítico superior (há cerca de 25.000 anos) até à Idade Média, passando pela ocupação romana e visigótica.
Exposição documental
“BI Aveiro” é o título da exposição que será inaugurada no Museu da Cidade, pelas 18h30, mostra comissariada por Maria José Azevedo Santos e Maria Helena da Cruz Coelho. A primeira é directora do Arquivo da Universidade de Coimbra, e a segunda é docente na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Esta é uma exposição essencialmente documental, que resulta da colaboração de um conjunto de instituições locais e nacionais, onde se destacam o Arquivo Nacional da Torre do Tombo, o Instituto Geográfico português, o Museu de Aveiro, o Arquivo e Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, a Santa Casa da Misericórdia de Aveiro, a Diocese de Aveiro, a Universidade de Aveiro, a Biblioteca Municipal de Aveiro e o Arquivo Histórico Municipal de Aveiro.
A exposição integra ainda um espaço denominado “Me-mória Visíveis” que invoca “as vozes de Aveiro que tiveram reconhecimento público da sua acção e foram homenageados em monumentos escultóricos”: José Estêvão, Princesa Santa Joana, João Afonso de Aveiro, João Evangelista de Lima Vidal, Lourenço Peixinho, Gustavo Ferreira Pinto Basto, Álvaro Sampaio, José Rabumba, Alberto Souto, Jaime Magalhães Lima e Manuel Firmino. Para além desses vultos, em Aveiro, há ainda monumentos escultóricos evocativos de Mário Duarte (monumento que estava no Parque, junto a uma das entradas do antigo Estádio Mário Duarte), de Egas Moniz (no recinto exterior do Hospital Infante D. Pedro), e ainda uma “pedra” evocativa de Zeca Afonso (no parque da Baixa de Santo António).
Cardoso Ferreira
12 de Junho de 922 – a primeira referência a Aveiro?
Segundo um documento incluído no “Livro Preto da Sé de Coimbra”, e transcrito em “Portugaliæ Monumenta Historica – Diplomata et Chartæ” (I, Lisboa, 1867, pgs. 16-17, doc. XXV), no ano de 922 – 960 da Era de César – D. Ordonho II, rei da Galiza (910-924) e de Leão (914-924), e a rainha D. Elvira Mendes de Coimbra, sua mulher, desceram das terras nortenhas para visitar “Portucale”. Daqui, com a sua comitiva e os seus militares, navegaram pelo Douro e foram até ao Mosteiro de Crestuma, edificado na margem sul do rio, no qual se acolhera o bispo D. Gomado, depois de ter resignado à Sé de Coimbra, desejoso de aí terminar os seus dias como simples anacoreta. Foi então que, no dia 12 de Junho («IIª idus iunii») desse ano, os soberanos e alguns magnates da sua Corte doaram ao prelado e à abadia muitas herdades, vilas e igrejas. Na relação dos bens, anotam-se os seguintes que se referem à região de Aveiro: – As igrejas de «Abranca prenominatas Sancto Petro de Uilla Plana»; a igreja de S. Tiago «in ripa Ul»; a igreja de S. Miguel de Uilla Oliuaria»; o mosteiro de Santa Marinha «in ripa de Antoana»; a igreja de S. Paio «in terra de Eceurario uilla Ossella» e a de S. Donato e S. João «in porto de Obal». Consta também nesta enumeração: – «Dedit ipse rex et ipsi comites nabulum et portaticum de Durio in die sabbati, de PORTU DE ALIOUIRIO et per totos illos portus usque in illa foce de Durio mare quantumcumque eis Dominus dederit piso die pro remedio animarum illorum et pro illorum prosa pie.» Isto é: – «Deu-lhes o mesmo rei e a sua comitiva a navegação e a portagem do rio Douro no dia de sábado, do porto de Aliovírio e por todos os seus portos até à foz do rio Douro onde entra no mar, quanto o Senhor der naquele dia para remédio das suas almas e para as da sua geração.» Contudo, após análises do texto, subsistem sérias dúvidas sobre a veracidade histórica deste documento, sendo considerado por alguns peritos como um mero registo de 1115 ou 1116 embora feito sobre elementos anteriores; mas, se o referido diploma for autêntico e se o último topónimo corresponder a uma diferente anotação de “Alavário”, ter-se-á nele a primeira menção da existência histórica de Aveiro, terra situada à beira do oceano, com o seu porto marítimo.
Mons. João Gaspar
(excerto de obra a publicar em breve)
