Aveiro habitada desde tempos imemoriais

A primeira referência documental a Aveiro, que se conhece, data do ano 959. Aveiro foi elevada à categoria de cidade há somente 250 anos. No entanto, as referências não documentais, ou seja, os vestígios arqueológicos encontrados na região provam que o início do povoamento nesta zona remonta há mais de 20.000 anos, portanto, muito anterior aos primeiros documentos escritos.

Paulo Morgado e Sónia Filipe, comissários da exposição “Aveiro: dos artefactos à escrita”, que se encontra patente ao público na galeria da Capitania, em Aveiro, até ao dia 22 de Março, dão a conhecer esse passado remoto da região de Aveiro.

Vale de Videiras (em Eirol), Mamoa de Mamodeiro (em Nossa Senhora de Fátima), Agra do Crasto (em Aradas), Lugar da Torre e Lugar da Marinha Baixa (ambos, em Cacia) e Forno Cerâmico de Eixo (em Eixo) são os locais arqueológicos apresentados nesta exposição. Para cada uma destas “estações arqueológicas”, a mostra apresenta algumas das peças mais antigas e relevantes aí encontradas, bem como informação detalhada sobre a respectiva “estação”, os trabalhos aí desenvolvidos e os vestígios encontrados.

No âmbito desta exposição, a Câmara Municipal de Aveiro editou um excelente catálogo, com mapas, fotografias a cores e documentação sobre cada uma das “estações arqueológicas”, trabalho complementado com dados bibliográficos que remetem para outros estudos relacionados com o tema em análise.

Perdidos vestígios arqueológicos

Na área urbana da cidade de Aveiro, muito em especial nas designadas “zonas históricas” foram perdidos muitos vestígios arqueológicos por falta do devido acompanhamento quando do derrube de habitações antigas ou de fundações para implantação de novos edifícios.

Nas recentes obras de conservação do Museu de Aveiro, tanto no interior como na zona envolvente, foram encontrados restos de antigas construções, anteriores à edificação do Convento de Jesus, entre outros vestígios históricos. Há alguns anos, quando foi construído o oratório da Sé de Aveiro (no exterior), surgiu um pequeno troço dos alicerces da antiga muralha da cidade. Agora, com as obras que estão a decorrer no antigo Convento das Carmelitas, apareceu um pequeno troço de um alicerce que também poderá ser de construções antigas.

No entanto, esses vestígios arqueológicos não apareceram unicamente em imóveis históricos, como igrejas e conventos. Há poucos anos, na construção de um novo edifício na Rua Capitão Sousa Pizarro surgiu mais um troço da antiga muralha, achado que se tornou conhecido porque foi estudado pela ADERAV. Na zona do Alboi, na construção de um edifício que substituiu um outro mais antigo, apareceram alicerces de uma antiga construção que, pela sua localização, poderiam ser de uma antiga casa nobre que aí existiu.

Nos últimos anos, têm decorrido várias intervenções urbanísticas que implicam a abertura de fundações e remoção de terras, em zonas históricas da cidade, nomeadamente nos bairros da Beira-Mar, de Sá e do Alboi, e na área que ficava dentro das antigas muralhas da cidade.

No século XVI, a então vila de Aveiro chegou a ter mais de dez mil habitantes, igrejas, conventos, casas nobres, muitas casas de gente do povo, muralhas, um aqueduto, entre outras edificações. Aveiro tinha então um importante porto localizado dentro da área da actual cidade (no Canal Central), frequentado anualmente por centenas de embarcações, bem como uma indústria que, para a época, seria relevante, sobretudo no sector da cerâmica, da pesca, do sal e também , devido à importância do seu porto, da reparação naval. Apesar de tudo, os vestígios arqueológicos que têm sido estudados e preservados são muito poucos para uma cidade que tem esse historial.

Cardoso Ferreira