Aveiro no culto a São Gonçalo

1. A figura e a história

São Gonçalo de Amarante pertence à nobre família dos Pereiras e nasceu (1200?) em Arriconha, freguesia de Tagilde, perto de Guimarães. Faleceu em Amarante, a 10 de Janeiro de 1262. O seu culto foi permitido pelo Papa Júlio III, em 1551, confirmado pela beatificação de Pio IV, em 16 de Setembro de 1561. Em 1671, o papa Clemente X estendeu o ofício e a missa do beato Gonçalo de Amarante a toda a Ordem dos Pregadores.

Temos portanto o local do seu nascimento e da sua morte e a respectiva data. Mas do seu nascimento pouco se sabe. De concreto temos o documento mais antigo que existe sobre São Gonçalo: um testamento de 18 de Maio de 1279, em que uma mulher testa a favor da Igreja de São Gonçalo de Amarante. O que não deixa de ser muito interessante, pois dezassete anos após a sua morte, já existe um templo dedicado ao seu culto, quase trezentos anos antes da sua aprovação pela Igreja.

As informações certas sobre a sua vida são inversamente proporcionais ao culto e aos milagres que se lhe atribuem. É no ano de 1513, num livro dedicado às biografias dos Santos, um “Flos Sanctorum”, que se relatam alguns factos da vida de São Gonçalo. A existirem outros livros anteriores a este, não se encontraram até hoje, e é nesta edição de 1513 que bebem os sucessivos trabalhos da hagiografia de São Gonçalo.

Onde vai então este documento buscar a informação de que São Gonçalo era dominicano? Muito provavelmente à tradição oral que, em casos como este de falta de informação escrita, se torna bastante importante e de considerar. De facto, a maior parte das biografias de São Gonçalo é de frades dominicanos, por via de uma orientação do Capítulo Geral da Ordem de 1532, no qual se ordena a recolha dos nomes das suas pessoas ilustres.

Foi, no entanto, o famoso Frei Luís de Sousa quem de forma mais completa e detalhada nos narrou a vida de São Gonçalo, na “História de São Domingos” que ele continuou e concluiu. Até então, São Gonçalo é visto e estudado como personagem medieval, muito na sua dimensão milagreira. Doravante, Luís de Sousa conceberá, com respeito pelas informações do passado, uma figura actualizada e de acordo com a visão do Concílio de Trento (1545/63). São Gonçalo é beatificado exactamente durante este Concílio, em 1561. Se Frei Luís de Sousa deu consistência a esta biografia, uma obra de Manuel Pereira, de 1672, muito próximo da cúpula dos Dominicanos, iria universalizar e dar cunho definitivo ao seu culto, isto um ano depois de Pio IV o ter autorizado. Aqui estão portanto, as principais fontes sobre São Gonçalo. O exemplo de vida pessoal e pastoral que emana do santo de Amarante é pois muito importante durante o séc. XVII, o que talvez explique o famoso P.e António Vieira ter escrito o Sermão de São Gonçalo.

Relativamente à sua vida, será unânime dizer que recebeu os rudimentos de instrução com um tio sacerdote, embora haja quem afiance tratar-se de um bispo, ou então, não de uma só pessoa, mas de um convento beneditino que existiu em Tagilde. Frequentou depois a escola episcopal de Braga, foi ordenado presbítero e nomeado pároco de São Paio de Vizela, bem próximo de Tagilde, onde nascera. Terá ido em devota peregrinação a Roma e aos Lugares Santos de Jerusalém. Muito enraizado na sua lenda é o facto de, na altura da sua viagem, ter confiado a paróquia a um sobrinho seu sacerdote. Este expulsou-o da paróquia quando o tio regressou, de tal modo era apegado às coisas do mundo, e de tal forma o seu tio vinha desfigurado. Sem a sua paróquia, terá seguido uma vida de entrega espiritual intensa e uma pregação incessante, vestindo o hábito dominicano, era então prior da comunidade São Pedro Gonçalves Telmo. Este santo teve uma imagem na demolida Capela de São João do Rossio.

A reforma litúrgica da Igreja Católica propõe para São Gonçalo as orações da Missa do comum dos Pastores da Igreja ou dos Santos Religiosos.

2. O Culto em Aveiro

Talvez a hipótese mais credível para a introdução do culto a São Gonçalo em Aveiro seja por intervenção dos religiosos da Ordem dos Pregadores de São Domingos, que se instalaram no Convento de Nossa Senhora da Misericórdia em 1423, do qual resta o que é hoje a Sé de Aveiro. Pelo menos há 448 anos a figura do religioso é falada e conhecida em Aveiro.

No referente ao culto a São Gonçalo entre nós, talvez tenhamos de o dividir por quatro espaços físicos. Primeiro o Convento dos Dominicanos, depois a primitiva Capela de São Gonçalo, em terceiro lugar a actual Igreja de Nossa Senhora da Apresentação, paroquial da Vera-Cruz, e em quarto a Capela de São Gonçalinho.

Se hoje entrarmos na Sé, recolhemos desde logo dois vestígios sobre São Gonçalo. Um pano e uma tela num cadeiral, No que diz respeito à história, há uma provisão para pedir esmola entre os fiéis às Confrarias de Nossa Senhora do Rosário e de São Gonçalo, de 1812. Depois, a actual Capela do Sagrado Coração de Jesus era dedicada, no tempo dos frades, a São Gonçalo. Aqui estava, até 1976, a mesa do altar da Igreja da Glória.

É curioso que uns versos da tradição popular nos confirmam a existência do culto gonçalino nas freguesias da Glória e da Vera-Cruz. E que são estes:

S. Gonçalo lá de cima

é das velhas curraleiras

S. Gonçalo cá de baixo

é das novas pescadeiras.

Saindo da Sé, atentemos numa data: 1572. Nesta data constituem-se três novas freguesias, entre elas Nossa Senhora das Candeias, mais tarde Apresentação, a qual ficou instalada provisoriamente na Capela de São Gonçalo.

Relativamente ao culto a São Gonçalo em Aveiro, conforme diz o dr. José Pereira Tavares no artigo dedicado à Festa de São Gonçalinho, “vem de longe esse culto (…), mas não será fácil determinar com precisão quando principiou”. Embora uma imagem da sacristia da Igreja Paroquial da Vera-Cruz, datada do séc. XV, nos mostre a antiguidade do culto.

Podemos no entanto apontar que a partir de dada altura da nossa história colectiva, já existia uma ermida a este santo, e Aveiro conheceu dois templos dedicados a São Gonçalo. Marques Gomes, nas “Memórias de Aveiro”, sobre a primitiva capela, diz: “É de bastante antiguidade, e foi reformada em 1714”.

Ora, sabe-se que a primitiva Capela de São Gonçalo se situava junto das Salinas do Rossio, sensivelmente no mesmo lugar da actual. E Marques Gomes diz que os carmelitas descalços aqui estabeleceram, em 1613, o seu convento. Sabemos também que o povo a construiu no séc. XVI, uma vez que numa informação paroquial dada pelo prior da freguesia de Nossa Senhora da Apresentação ao provisor do bispado de Coimbra, se refere a esta construção como tendo cerca de duzentos anos. Portanto, logo após a beatificação de São Gonçalo, Aveiro tratou de lhe erguer um templo.

Toda a dinâmica do culto em torno de São Gonçalo e à religiosidade popular está bem presente nas várias redondilhas e melodias que o povo lhe dedicou e que mais modernamente o poeta Amadeu de Sousa escreveu. Mas também outras associações, como a Confraria de São Gonçalo, e a Tuna que o tem como patrono, revelam bem a presença da sua figura fora dos limites do bairro da Beira-Mar. As sucessivas mordomias da Festa de São Gonçalinho têm-se esforçado por actualizar o seu culto, através de litografias de reconhecidos artistas, peças de elevado valor e de série limitada, e o sucessivo engrandecimento da festa com publicitação na comunicação social a nível nacional. Essas mordomias agregam desde há anos, não só homens da Beira-mar mas também pessoas oriundas de outras terras que se sentem ligadas a São Gonçalo. Naturalmente a uniformização dos costumes esbate as particularidades dos povos, mas o que é essencial em São Gonçalinho de Aveiro tem-se mantido com factor de unidade e ponto de orgulho de quem organiza a sua festa.

O culto a São Gonçalinho, por se realizar nesta terra há, pelo menos, quase 500 anos, deve responsabilizar todos os aveirenses na ligação das nossas tradições aos vindouros, conforme nos foram transmitidas pelos nossos antepassados, com o mesmo amor e dedicação a Aveiro.

Obras consultadas: Arquivo da Paróquia da Vera-Cruz, Arquivo do distrito de Aveiro, Aveiro – Apontamentos históricos, Calendário Histórico de Aveiro, Catedral de Aveiro – história e arte, São Gonçalo de Amarante e São Gonçalo – história ou lenda? (obras de vários autores)

Excertos do texto apresentado a 14 de Novembro de 2009 nos IV Encontros de São Gonçalinho

Nuno Gonçalo da Paula