Seis painéis de azulejos com interesse histórico, na Rua de Sá, merecem ser resgatados da ruína
No muro fronteiro às “Casas Francisco Gaspar”, na Rua de Sá (em Aveiro), encontram-se seis painéis de azulejos, dos quais pelo menos um é datado de 1893, sendo alguns deles de relevante interesse para a etnografia e para a história do pa-trimónio construído da região de Aveiro, com especial destaque para Angeja. Apesar dessa importância e da sua antiguidade, esses painéis estão praticamente em ruína, sem que entidade alguma se resolva preservá-los.
Um dos painéis é mesmo um documento histórico, já que apresenta as “Ruínas do antigo palácio do Marquez d’Angeja”, imagem que retrata o estado desse palácio em finais do século XIX, e que se erguia no centro de Angeja. Este painel é assinado por A. Menezes, mas a data já não está visível.
Também de interesse para Angeja, e para a etnografia regional, é o painel intitulado “Angeja – Lavadeiras do Rio Vouga”. Este é o único painel em que ainda é perfeitamente visível a assinatura do autor e data – A. Menezes / Angeja / 93.
Um outro painel apresenta a “Avenida Beira Mar”, na cidade brasileira do Rio de Janeiro, e outro retrata o “Jardim Público Vasco da Gama” em Lourenço Marques, cidade que após a independência de Moçambique passou a chamar-se Maputo. Neste último painel ainda se encontram legíveis as palavras A. Menezes e Angeja.
As relações entre Portugal e o Brasil são o tema de um quinto painel. Aqui estão retratados o navegador (descobridor do Brasil) Pedro Álvares Cabral, com as suas naus, e os aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral (que realizaram a primeira travessia área do Atlântico Sul, entre Lisboa e Rio de Janeiro) com o seu hidroavião. A cidade do Rio de Janeiro está representada pelo morro do Pão de Açúcar, enquanto a capital portuguesa está presente pela Torre de Belém. Infelizmente, neste painel já não é possível ver a assinatura e a data de execução, mas será bastante posterior, uma vez que a viagem de Gago Coutinho e Sacadura Cabral ocorreu na primeira metade do ano de 1922. No entanto, pelas suas características gráficas, este painel também deverá ser de A. Menezes.
Há ainda um sexto painel, com uma imagem que poderá ser da região de Aveiro, mas a degradação é de tal modo elevada que quase já não permite uma identificação correcta, tanto mais que já não tem os azulejos com o título do painel.
De acordo com o Mapa de Arquitectura de Aveiro, as Casas Francisco Gaspar datam de cerca de 1910 / 1920, o que significa que alguns dos painéis de azulejos são anteriores (finais do século XIX) à construção da casa e pelo menos um é posterior (depois de 1922). Isso levanta outra questão, a de saber se os painéis mais antigos (os que retratam Angeja) foram removidos de outro local (e qual seria?) para serem aí colocados, ou se aguardaram mais de duas décadas até serem colocados no local definitivo (e qual o motivo dessa prolongada espera?).
Cardoso Ferreira
