Banqueiro dos Pobres ganha Nobel da Paz

Muhammad Yunus, impulsionador do microcrédito “Pelos seus contributos em criar desenvolvimento económico e social a partir de baixo”, o Comité norueguês atribuiu o Nobel da Paz 2006 a Muhammad Yunus e ao “Banco da Aldeia”, fundado pelo economista do Bangladesh. O Nobel será entregue no dia 10 de Dezembro, em Oslo.

27 dólares. Muhammad Yunus começou com esta quantia, em 1974, uma experiência que hoje afecta positivamente 500 milhões de pessoas. A ideia do microcrédito – empréstimo de pequenas quantias a pessoas excluídas da banca tradicional – era antiga, mas só com este professor de economia do Bangladesh, formado nos Estados Unidos, foi posta em prática de modo sustentado. Para isso fundou o Grameen Brank (“Banco da Aldeia”), que até hoje emprestou 4,5 mil milhões de euros a 6 milhões de pobres. Actualmente, três mil instituições praticam o empréstimo de pequenas quantias a quem não oferece garantias, mas tem vontade e uma ideia (em Portugal: Millennium BCP e Caixa Geral de Depósitos). A lógica é esta: os pobres precisam de crédito, não de esmolas ou subsídios. E os resultados têm sido excelentes. Não só os pobres saem da pobreza, como os bancos recuperam o dinheiro. A taxa de cumprimentos dos encargos é de 99%, muito superior ao que se passa na banca tradicional.

Numa entrevista que o Correio do Vouga citou na edição de 16 de Novembro de 2005, M. Yunus explicou a razão do sucesso do microcrédito: “Sabe porque falham muitas medidas de combate à pobreza? Porque se olham os pobres como gente diminuída, pouco esperta, forçosamente preguiçosa, a precisar de seguir os conselhos dos que são mais ricos. Isso é totalmente falso. Os pobres sabem melhor do que ninguém do que precisam exactamente, para sair da pobreza. (…) Quase sempre tiveram apenas menos sorte e menos instrução, mas não são menos inteligentes. Sabem, aliás, muito melhor rentabilizar os seus talentos e lutar pela sobreviência. Tal como um rico que queria tornar-se empresário, precisam de crédito, mas dispensam subsídios e esmolas.”

Muhammad Yunus, 66 anos, defende que os economistas se centrem mais na “pobreza das pessoas” do que na “riqueza das nações” e costuma deixar bem claro que nunca dá esmolas, embora desta vez já tenha dito que dará metade da sua parte do Prémio (os 1,1 milhões de dólares são divididos por Yunus e o Grameen Bank) ao próprio banco.

Microcrédito em Portugal

Em Portugal, existe microcrédito desde 1998, com a criação da Associação Nacional de Direito ao Crédito, mas só em 2005, Ano Internacional do Microcrédito, esta prática conquistou mais visibilidade. Entretanto, o ministro do Trabalho e da Solidariedade Social prometeu rever o enquadramento legal, de modo a facilitar o microcrédito.

Para saber mais: www.microcredito.com.pt.

Justificação do comité do Nobel

“Muhammad Yunus revelou ser um líder capaz de transformar a sua visão em acções práticas para o benefício de milhões de pessoas, não apenas no Bangladesh, mas em muitos outros países.

Conceder empréstimos a pessoas pobres sem qualquer garantia financeira parecera uma ideia impossível (…)

Todos os indivíduos têm o potencial e o direito de viver uma vida decente. Em muitas culturas e civilizações, Yunus e o Grameen Bank mostraram que até o mais pobre dos pobres pode trabalhar para alcançar o seu desenvolvimento. (…)

O microcrédito revelou-se uma força libertadora em que sobretudo as mulheres têm de bater-se contra condições económicas e sociais repressivas. (…)”

Erradicar a pobreza e a exclusão social

A erradicação da pobreza e da exclusão social é indiscutivelmente um dos principais desafios do desenvolvimento e dos direitos humanos do nosso século, havendo uma consciencialização crescente que é imperioso conciliar o desenvolvimento económico com a coesão e justiça social. (…)

Portugal detém a condição de país mais desigual na UE e de portador de maior índice de pobreza relativa, com (…) 2 milhões de portugueses a viver em situação de pobreza. (…)

Importa caminhar na luta contra a pobreza e exclusão com um desígnio explícito: de que é possível atingir a meta da erradicação! A erradicação da pobreza e da exclusão social não é um mito, não é uma utopia, é um desafio e um desígnio que exige o compromisso de todos!

Excertos da mensagem da REAPN (Rede Europeia Anti Pobreza / Portugal) para o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, 17 de Outubro

Comentários

O que Muhammad Yunus viu nas pessoas do bairro de lata pelo qual tinha de passar todos os dias a caminho da universidade de Daca [Bangladesh], foi pessoas trabalhadoras, engenhosas e empreendedoras, limitadas no seu crescimento pela ganância de usurários, ou dos fornecedores de matérias-primas. (…) Ver a realidade para além dos clichés culturais, científicos ou outros que a justificam e impedem de ver nela as potencialidades que a podem transformar, é um modo de olhar habitualmente reservado aos génios, aos artistas, aos criadores. (…) Antecipo que o discurso de Yunus na cerimónia de entrega do Nobel da Paz será um texto memorável. Simples, bem-humorado, certeiro. Através dele serão muitos milhões de seres humanos a festejar o caminho que trilharam para sair da pobreza.

Jorge Wemans, fundador da ANDC

Público, 14-10-06

“Paulo VI afirmou que «o novo nome da Paz é o desenvolvimento», e o microcrédito tem essa filosofia” (…) Não se trata apenas de “manter a subsistência das pessoas, mas dar-lhes mecanismos para que elas consigam progredir. (…) A micro-economia – aquela que recebe um pequeno empréstimo para o relançamento na vida – consegue fazer mais maravilhas que a macro-economia”.

Eugénio da Fonseca, Presidente da Cáritas Portuguesa, em declarações à Ecclesia

O Prémio Nobel da Paz não poderia ser mais bem atribuído. Sem pão não há paz, sem paz não há direitos individuais. (…) [Os bancos tradicionais] são conhecidos por “emprestar um guarda-chuva quando está sol e pedir que o devolvam quando começa a chover”. (…) O Grameen Bank, fundado por Muhammad Yunus, empresta o guarda-chuva quando a tempestade é violentíssima. E tem garantido o pagamento de 99% dos seus empréstimos.

Helena Garrido

Diário de Notícias, 14-10-06