Batalhão de avós, em exercício diário

Uma pedrada por semana Uma estatística recentíssima do PNUD, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, diz que há no mundo 500 milhões de avós em exercício.

Achei curiosa a expressão “avós em exercício” porque, quando se fala dos mais velhos, e os avós estão nesse número, mais se diz das suas limitações e fragilidades, que da sua utilidade na familiares ou noutros lados.

Em anos passados não se falava dos velhos. Eles eram a trave mestra da família, sempre amados, respeitados e ouvidos. A sua presença era tão normal e apreciada, no seio dos seus e da comunidade, que não tinham porque se distinguir. Eles eram a referência e a distinção.

Foi deixando de ser assim a pouco e pouco. Um idoso de 80 anos, lúcido e pouco resignado, no Lar onde um filho o deixara, pôs-me o seu problema, à procura de uma solução: “O meu filho, começou ele, pôs-me aqui, dizendo que não tinha lugar para mim lá em casa…Ora essa é boa! A casa fui eu que a fiz, criei lá sete filhos, éramos nove e cabíamos todos. Agora, é só o casal e um filho, e não é lugar para mim? Não entendo, senhor bispo”. Percebi a dor que ia nestas palavras e, com uma comoção que não escondi, segredei-lhe ao ouvido: “Sabe? Quando o coração se faz pequeno, as casas também diminuem”. – “Ah! Agora já percebi! É isso mesmo!”, exclamou.

Os avós estão outra vez a ganhar estatuto familiar. Porque são precisos e úteis, claro. Podem ocupar-se dos netos mais pequenos, quando cobrem as horas em que os pais estão a trabalhar, alguns quando trazem para casa a sua reforma e aumentam o bolo do casal, às vezes muito reduzido…Não é sempre assim, bem sei.

A verdade, porém, é que há filhos que já tinham esquecido os pais e se lembram agora deles, porque lhes são precisos.

500 milhões de avós em serviço útil! Que maravilha! É a vingança da natureza viva, sobre a natureza acomodada ao mais fácil e agradável… Pode ser, que do amor utilitário se chegue ao amor gratuito, o verdadeiro amor.

O crepúsculo do fim do dia tem cores lindas. Mais belas e lindas, quando se trata do crepúsculo da vida, onde iluminam e por ele são iluminados muitos avós e mais idosos.

Que os filhos descuidados e a sociedade sem alma o saibam ver a tempo.