Bateira Erveira de Canelas volta aos canais do bocage

No dia 10 de novembro, no Ribeiro de Canelas, teve lugar o bota-abaixo de uma Bateira Erveira de Canelas, numa iniciativa do BioRia e do projeto Estação-Viva que visa a preservação de um modelo de embarcação típica do Baixo Vouga Lagunar e originária do concelho de Estarreja.

A construção da bateira, que foi financiada pela Câmara Municipal de Estarreja e pelo PACOPAR (Painel Consultivo Comunitário do Programa Atuação Responsável), cujo valor global foi de 3380 euros, concretizou-se no âmbito do projeto Estação-Viva, instalado no antigo edifício do Apeadeiro de Canelas.

A embarcação foi construída por Manuel Pires, que recorreu às memórias do seu pai, mestre Arnaldo Barqueiro.

Esta iniciativa pretende revitalizar uma embarcação já extinta, que em tempos era exclusiva do sul do concelho de Estarreja. A nova erveira vem-se juntar ao até agora único exemplar existente, em exposição no Museu Marítimo de Ílhavo.

O BioRia pretende utilizar a bateira para a realização de visitas ao “coração” do bocage (zona de campos delimitados por sebes), que de outra forma não seriam possíveis. Noutros tempos, a sua utilização observava-se nas valas e esteiros da região entre Vouga e Antuã, devido à sua robustez para transporte de gado marinhão, pastagens e cereais dos campos do Baixo Vouga.

Bateira calafetada

com breu e casca de arroz

A “Bateira Erveira de Canelas” adquiriu esta designação pelos estudiosos da etnografia da Ria de Aveiro ao registarem-na em maior número e em maior construção na freguesia de Canelas.

A técnica de calafetagem utilizada, recorrendo ao breu negro e casca de arroz, permitia uma maior duração e resistência no seu contacto com águas doces e salobras, assim como nas grandes variações de caudal durante o ano, que oscilavam entre cheias e secas, ambientes estes tão adversos às madeiras.

O cavername é constituído por madeira de oliveira e carvalho, sendo o revestimento posterior a pinho. As suas medidas, inferiores às do moliceiro, com apenas 14 cavernas, 80 cm de pontal e 2m de boca, faziam com que esta embarcação se adaptasse com maior ligeireza às valas características do biótipo bocage.