Nestes tempos sem tempo, o jornalismo que se propala nos nossos diários não pode senão reflectir esta voragem que tudo arrasa à sua frente. Nesta onda vertiginosa, temos assistido, de forma cada vez mais clara, a uma incauta falta de rigor em titular assuntos sobre os quais a Igreja se pronuncia que, pela sua frequência, chega a fazer supor uma articulação intencionada. Motiva esta introdução um título encontrado em página de capa de um dos nossos matutinos de grande tiragem, que, para se referir a discurso do Papa aos participantes de Sessão Plenária da Congregação para a Doutrina da Fé, chama a título a ideia de um ‘ataque’ do Papa à ciência. Para além da imagem belicista que logo se suscita no leitor menos avisado, este é mais um contributo para uma cada vez mais difundida ideia de obscurantismo a que alguns pretendem, não sem intenções menos explícitas, colar a Igreja.
Mas tomemos em referência o que o Papa diz no referido discurso de 31 de Janeiro: “O magistério certamente não pode e não deve intervir em relação a cada novidade da ciência, mas tem o dever de repetir os grandes valores em jogo e de propor aos fiéis e aos homens de boa-vontade princípios e orientações ético-morais para as novas questões importantes. Os dois critérios para o discernimento moral neste campo são: a) o respeito incondicionado pelo ser humano como pessoa, desde a sua concepção à sua morte natural; b) o respeito pela originalidade da transmissão da vida humana através dos actos próprios dos cônjuges.”
Daqui não se depreende qualquer ataque formal ou informal à ciência, em si mesma, mas a uma procura tecnologicista de fazer ciência, que identifica o poder fazer com a pretensa legitimidade ética para o fazer. A provar que esta denúncia não se destina ao universo da ciência, mas a um determinado modo de se proceder, estão as palavras a que, mais adiante, Bento XVI recorre, para reforçar que ‘certamente a Igreja aprecia e encoraja o progresso das ciências biomédicas que abrem prospectivas terapêu-ticas ainda desconhecidas, mediante, por exemplo, o uso das células estaminais somáticas ou então mediante as terapias destinadas à restituição da fertilidade ou à cura das doenças genéticas. Ao mesmo tempo, sente o dever de iluminar as consciências de todos, a fim de que o progresso científico seja, verdadeiramente, respeitador de cada ser humano […].’
Tais condições suscitam, naturalmente, a crítica implícita a uma forma de se fazer ciência que reduz o humano à condição coisificante. “Quando os seres humanos, no estado mais débil e mais indefeso da sua existência, são seleccionados, abandonados, mortos ou utilizados como puro «material biológico», como negar que esses são tratados já não como «alguém», mas como «algo», pondo, assim, em questão o próprio conceito de dignidade humana?”
A interrogação gira, em última instância, em torno do conceito de progresso que desejamos. Pretendemos um regresso ao conceito positivista e marxista de progresso, que tudo reduz à simples mudança vertiginosa, sem sentido, ou ainda é possível acreditar num progresso humanamente sustentável? Bem certo que, como diz o ditado chinês, “uma floresta que cresce, fá-lo silenciosamente; uma árvore que se abate faz um estrondo que longe se faz notado.” Mas, no fim, o silêncio da destruição…
Conto, a este propósito, uma história real, porém, oportuna.
Vivo num apartamento que faz parte de um condomínio a que pertencem mais 20 condóminos. Durante anos, contámos com a benfazeja convivência de um condómino que se encarregava de tudo resolver prontamente: uma porta que se estragava, a lâmpada que fundia, o portão que deixava de abrir… Tudo era prontamente arranjado. Tão prontamente que muitos não chegavam a notar que algo tivesse estado mal. Até que, recentemente, a vida se modificou e este benfeitor deixou-nos. De então para cá, as avarias tornaram-se notadas e o desejo de que a benfazeja presença regresse faz-se ouvir em surdina, nos corações de todos…
A voz da Igreja apela a esta ética do cuidado, do respeito que parece ausente até ao dia em que a sua real ausência tudo faz desabar, tarde fazendo despertar o desejo de que mais cedo houvéssemos acordado para o que todos viam mas sempre duvidavam que algum dia fosse possível.
Só esta ética protege a ciência. Porque o sentido da ciência é o bem do homem e da natureza. Porque só a ética do cuidado é verdadeiramente progressista, ao desafiar a que se encontrem outros caminhos, que nem sempre os mais fáceis, para dar solução aos desafios. A ciência, sem esta ética do cuidado, é, conformista: basta-se com o que pode já fazer, sem se interrogar se haverá outros caminhos de maior respeito a percorrer.
Ao leitor caberá responder quem, de facto, ataca a ciência, conduzindo-a à sua própria destruição. Uma ciência que não serve todo e cada ser humano a quem serve?
