Bento XVI: Comercialização solidária

Questões Sociais A comercialização de produtos e serviços é fundamental nos processos de desenvolvimento. Isso mesmo tem sido reconhecido no pensamento social cristão, e é claramente reafirmado por Bento XVI, na encíclica «Caritas in Veritate»: Uma ideia-força aí defendida é a de «comércio internacional justo» (nº. 58); outra é a de comércio activador do desenvolvimento (nº. 58); a terceira é a da «responsabilidade social do consumidor» (tema do próximo artigo); e a quarta respeita ao princípio da gratuidade (nº. 36).

O «comércio internacional justo» destina-se a contribuir para que as matérias primas, os produtos agrícolas e outros bens originários dos países mais retardados possibilitem uma vida condigna aos respectivos povos, bem como o «financiamento» do respectivo «desenvolvimento». Sabemos que o cumprimento desta linha de orientação não vem sendo fácil: Nalguns casos, o comércio internacional faz baixar os preços para níveis baixíssimos, prejudicando gravemente os povos mais pobres, explorados assim pelos mais ricos; noutros casos, são as próprias autoridades e os poderes económicos dos países mais retardados ou emergentes – como por exemplo a China – que impõem esses preços com vista à competitividade internacional.

A ideia de comércio activador configura-se bastante adequada à situação actual e muito promissora para o futuro; pode constituir uma chave-mestra das políticas económicas e de emprego. A encíclica defende o esforço para que a produção de bens se adapte «melhor à procura», e recomenda «formas novas de comercialização» (nº. 66); para tudo isto, considera necessária «maior formação, profissionalização e tecnologia» (nº. 66).

O conjunto de orientações sobre comercialização, recomendadas na encíclica, sintetiza-se no «princípio de gratuidade», que não implica a eliminação da «actividade económica normal»; em vez disso, deixa patente que as «relações autenticamente humanas de amizade e camaradagem, de solidariedade e reciprocidade» podem ser vividas «no âmbito da actividade económica». Nesta conformidade, seria altamente vantajosa a criação de serviços de comercialização solidária, que sugiram aos produtores mais débeis as produções mais recomendáveis, e assegurem o respectivo escoamento nos mercados interno e internacional.