Bento XVI: consumidores cooperantes?

Questões Sociais Segundo a encíclica de Bento XVI «Caritas in Veritate» (nº. 66), «os consumidores» e as «suas organizações» constituem «um novo poder político». Este poder contém «elementos positivos que hão-de ser incentivados e excessos que se devem evitar». Por tal motivo, «ao lado da res-ponsabilidade social da empresa, há uma específica responsabilidade social do consumidor». Aliás, estas duas responsabilidades encontram-se estreitamente interligadas: Quando fa-lham acentua-se a prevalência de interesses egoístas e do capitalismo, no pior sentido da palavra.

A encíclica sugere três linhas de acção para que os consumidores assumam as suas responsabilidades sociais: a educação, o associativismo e a cooperação alargada. A educação, «sem cessar», visa três objectivos: «O res-peito dos princípios morais»; «a racionalidade económica intrínseca ao acto de comprar»; e a «sobriedade», que é sempre necessária, especialmente quando baixa «o poder de compra». O associativismo dos consumidores pode ser uma via privilegiada de representação e de auto-educação, «desde que não sejam eles próprios manipulados por associações não verdadeiramente representativas»; a cooperação alargada pode visar, por exemplo, a compra de determinados bens (como os provenientes de países mais retardados) ou a organização cooperativa dos próprios consumidores.

Afirma-se, na encíclica, que «um papel mais incisivo dos consumidores (…) é desejável como factor de democracia económica». Tal afirmação contrasta flagrantemente com a realidade actual, em que a generalidade dos consumidores faz o jogo da concentração de riqueza e de poder económico; de facto, na ânsia de conseguirem preços mais baixos e demais vantagens, escolhem as grandes superfícies e outros estabelecimentos com mais poder competitivo. É tão funda e perturbadora tal ânsia que os trabalhadores de baixos salários, eventualmente contestatários da exploração capitalista, fazem o jogo dela própria; encontram-se enredados de tal maneira que não vêem maneira de evitar ser cúmplices, embora não deixem de ser vítimas: São cúmplices através, nomeadamente das compras que efectuam; e são vítimas devido, nomeadamente, aos seus baixos rendimentos e à alienação consumista. Os trabalhadores e outros titulares de baixos rendimentos funcionam, assim, como explorados e como exploradores; reside aqui um dos problemas fundamentais do sistema económico e social…