“Bento XVI preocupa-se em casar a fé com a razão; aío encontro-me com ele”

José Manuel Fernandes integrou a equipa inicial do diário “Público”, em 1990, depois de ter passado pelo “Expresso”. No “Público”, foi subdirector, director-adjunto e director. Neste último cargo esteve entre 1998 e 2009. Mantém-se como colaborador, assinando uma página que sai à sexta-feira. É professor de comunicação social e tem vários livros publicados, destacando-se a obra em co-autoria com D. Manuel Clemente, “Diálogo em tempo de escombros. Uma conversa sobre Portugal, o Mundo e a Igreja Católica”, (edição Pedra da Lua). Na conversa promovida pelo Instituto Superior de Ciências Religiosas, do dia 5 de Janeiro, no Centro Universitário, declarou-se “católico sem fé”. Revê-se nas posições da Igreja, mas sente-se sem a “iluminação” da fé. Resumo das suas ideias por Jorge Pires Ferreira.

Católico sem fé

Há dias utilizei pela primeira vez esta expressão para me autodefinir: católico sem fé. O habitual é ver pessoas que têm fé, mas não são católicas.

Como a maioria das pessoas em Portugal, fui educado na cultura católica. Afastei-me da Igreja, mas fui tomando consciência de que alguns dos momentos mais importantes do discernimento da minha vida estão associados à evolução da doutrina cristã e à sua relação com os espaços públicos, sociedade e estados.

Concordo com muitas das posições da Igreja e de Bento XVI, menos quando se trata da iluminação da fé. Uma pessoa pode decidir que não vai ter fé, mas decidir que vai ter fé é mais difícil.

Poder independente

Apesar de todos os aspectos negativos da história da Igreja, dos quais não nos devemos esquecer – a Inquisição ou o papado dos Bórgia, por exemplo –, de todas as grandes religiões, a de Roma foi a única que criou um poder não coincidente. Há independência de poderes entre o temporal e o religioso, o que é determinante para a configuração da sociedade e da liberdade.

Presença pública da religião

Em Portugal, estamos muito marcados pelo iluminismo francês, que é um iluminismo anti-religioso, em contraste com o escocês e o dos “founding fathers”[pais fundadores] dos EUA. Para estes, a religião fazia parte da realidade social, pelo que aceitavam a presença da religião no espaço público, apesar de haver separação Estado/ Igrejas, e promoviam a liberdade religiosa.

O facto de as igrejas terem o poder que têm não constituiria problema se houvesse um laicismo positivo, uma laicidade não agressiva, como tem defendido D. José Policarpo.

No pós-25 de Abril não houve uma reedição dos problemas da I República. Mas na actualidade a relação não é descontraída. Há preconceitos em relação aos católicos praticantes. Há activistas relativamente presentes nos meios culturais e mediáticos que não estão muito longe de Afonso Costa [líder anticatólico da I República]. Isso viu-se, por exemplo, nas críticas a Jorge Sampaio, quando, sendo Presidente da República, foi receber João Paulo II a Fátima.

Valores para além das leis

Encontramo-nos actualmente num tempo em que podemos ser mais felizes porque mais livres, mas também mais atemorizados, onde é possível perder o norte. Não precisamos somente de regras, mas também de valores. Não de leis, mas da ética por detrás das leis. Nem tudo se resolve com novas leis, mais alíneas, novos enquadramentos legais. Precisamos antes de boas relações de vizinhança e de família, sem estar tudo estipulado.

Bento XVI

A quando da eleição do novo Papa, achei que a homilia [do cardeal Ratzinger] antes do conclave era particularmente forte. Com aquele caderno de encargos e pontos de preocupação… Não fiquei muito surpreendido com a evolução do papado. O Papa sabe onde passa a linha entre o que é tolerável e o que não é. Um cego não se aproxima. Ele, porque vem da Filosofia e da Teologia, é natural que vá mais longe. Muitas das suas intervenções têm de enfrentar o preconceito.

Ponto de encontro

Bento XVI preocupa-se em casar a fé com a razão. Eu, que não tenho fé, posso encontrar-me com ele nesse ponto. Não adiro integralmente, mas compreendo o sentido das suas acções.

Pelo poder de escolha na educação

Há uma linha contraditória na educação. Na Constituição portuguesa, fala-se no princípio da liberdade de aprender e de ensinar, mas depois o Estado quer criar uma rede para todos. Eu defendo a ética da liberdade: escolas diferentes, mais autónomas, com diversos projectos educativos. A lógica da administração pública é perversa. Na actual “chatice” com o ensino privado [cortes no financiamento], os sindicatos estão calados. O ensino privado apresenta melhores resultados, tem direcções mais fortes, mais estabilidade e é mais barato. Se os pais têm de escolher uma escola, preocupam-se. Se entregam o filho numa escola pública, que não escolheram, sentem-se mais impotentes.

Igreja e comunicação social

Igreja maltratada ou distorcida na comunicação social? Quase tudo na comunicação social ou está sob os holofotes ou está na penumbra. Quando o Papa veio a Portugal, falou-se muito dele e da Igreja. A seguir, o assunto desapareceu. É verdade que a comunicação vive de “soundbytes” [frases sonantes] e a pensar no espectáculo. Mas há outras dificuldades: défice de formação dos jornalistas em cursos de cultura geral, que por isso avaliam as questões pela superfície e pela aparência, tanto quando se lê Bento XVI como quando se trata do BPN; os tempos de reacção são muito rápidos; há pressões de fora da comunicação social; além de que as redacções são locais onde o laicismo negativo é mais forte.

O problema da dificuldade da Igreja na relação com a comunicação social não é especificamente português. A viagem do Papa a África foi abafada por uma frase sobre o preservativo dita no avião, quando quem está no terreno sabe que a Igreja é a instituição mais eficaz no combate à sida. Há estereótipos e preconceitos e tudo o resto morre. É um problema mais geral dos mecanismos de informação que temos.

Novos meios

Os meios tradicionais já não têm o monopólio da informação. Os jornalistas continuam a ser necessários, e ainda têm poder, mas não têm o monopólio. Há o twitter, o facebook, as redes. É aí que as pessoas estão. Sejam desassombrados. Difundam as vossas ideias. Falem dentro e fora da Igreja. Não tenham medo de falar. Se errarem, o mal pode ser corrigido.