Bispo de Aveiro propõe fórum para despertar alma social

D. António Francisco dos Santos propôs a realização de um “fórum que congregue instituições de solidariedade social” da diocese, como forma de “implicar, sensibilizar e dinamizar” a acção sócio-caritativa dos cristãos.

A proposta foi feita no encerramento da jornada promovida pela Cáritas Diocesana, que teve como tema “Pela dignidade, igual oportunidade” e decorreu na tarde do dia 10 de Março, no Seminário de Aveiro. D. António Francisco considerou que os cristãos têm de ser socialmente “criativos e ousados”, numa linha de “fantasia da carida-de”, conforme a expressão de João Paulo II. “Falta-nos a alma social”, disse. Para despertar esta alma, D. António Francisco sugeriu um grande encontro para instituições, grupos, técnicos e técnicas, que trabalham com idosos, pobres, toxicodependentes ou no apoio a mães em dificuldades, e apontou um título que revela à partida qual deve ser a atitude da Igreja: “Uma solicitude permanente”.

Nas intervenções de Isabel Monteiro e Acácio Catarino, sobre o tema que levou ao seminário de Aveiro meia centena de pessoas ligadas ao sector sócio-caritativo, realçou-se a acção que é possível desenvolver pelos cristãos, quer a título individual, quer em comunidade.

Cultura da solidariedade

A presidente em exercício da Cáritas Portuguesa notou que a desigualdade aumenta em Portugal. Conforme revelou, dados de 2004 dizem que 21% dos portugueses (dois milhões de portugueses; uma em cada cinco pessoas) têm rendimentos inferiores à linha de pobreza. Mais: o fosso entre muito ricos e os pobres é maior do que na generalidade dos países europeus. Neste panorama, “é necessário criar um novo movimento social”. Isabel Monteiro defendeu que é urgente “abandonar a cultura individualista” e apresentar a solidariedade como “novo fundamento da vida social”, “nova forma de unificar a humanidade”, e sugeriu “atitudes e comportamentos quotidianos que todos podem assumir” para essa nova cultura. Vejamos alguns: atenção às pessoas de diferentes nacionalidades; consumo mais esclarecido de informação (abandono da espectacularidade; procura de informação alternativa em revistas ou livros); compra de produtos do comércio justo e solidário; investimento em bancos éticos (os que, por exemplo, não investem em indústrias que exploram o Terceiro Mundo ou contribuem para a degradação ambiental); exercício dos direitos de participação que as sociedades democráticas permitem.

Os cristãos pressionam pouco

Acácio Catarino, por seu turno, subordinou a sua intervenção à pergunta: “Que respostas é que os leigos podem dar, face aos problemas da desigualdade?” A resposta: “consciência, acção e dinamização”. Em primeiro ligar, é necessário que haja consciência das desigualdades de facto e, ao mesmo tempo, da igual dignidade fundamental de todas as pessoas. Os cristãos, conforme notou o consultor social, têm um motivo acrescido para sublinhar a igual dignidade: a filiação divina de todas as pessoas. Os outros motivos são: a natureza humana, a evolução histórica (“apesar de tudo”, na linha da progressiva igualdade), as doutrinas e práticas de socialização e a “consciência da nossa relatividade”.

Quanto à acção, o antigo presidente da Cáritas Nacional sublinhou o âmbito familiar (“espaço por excelência da dignidade”), a distribuição mais justa dos rendimentos, defendendo a criação de uma verdadeira opinião pública dentro Igreja que questione a (in)justeza das desigualdades, e as intervenções em favor dos portadores de deficiência.

Por último, Acácio Catarino notou que a “dinamização permanente” sobre a questão da desigualdade está “profundamente atrofiada”. Defendendo uma pressão constante través de propostas concretas, iniciativas e tomadas de posição, lembrou que João Paulo II preconizou “um grande movimento empenhado na defesa da pessoa humana”, o chamado “movimento social cristão”.

Três grandes pecados sociais

Sem querer assumir um tom inquisitório, Acácio Catarino notou “três grandes pecados sociais cometidos actualmente” por pessoas e instituições:

– recusa do conhecimento solidário. Falta um tratamento estatístico das fichas que as instituições de solidariedade têm sobre os seus utentes e beneficiários. Uma relativamente simples análise de alguns itens dessas fichas (ou de outras a elaborar) pode potenciar a acção;

– falta de propostas concretas. “Os católicos têm doutrina e acção, mas deixam atrofiada a dinamização”;

– “falta de pressão permanente sobre os diferentes poderes públicos ou privados, para que alguma coisa aconteça”.

Há demasiados sinais de desigualdade

e discriminação

José Alves, diácono, justificou ao Correio do Vouga a realização da sessão “Pela dignidade, igual oportunidade” com a necessidade de sensibilizar os agentes de pastoral – grupos Cáritas paroquiais e outros leigos comprometidos –, de forma a “serem fermento na realidade onde estão inseridos”. O tema da semana Cáritas integra-se ainda no “Ano Europeu para a Igualdade de Oportunidades”.

Segundo o presidente da Cáritas diocesana, há demasiados sinais de desigualdade e discriminação. No ensino, há “desigualdade de tratamentos consoante a condição dos alunos” e é preocupante o abandono escolar. No emprego, “as mulheres continuam a ser discriminadas, quando se sabe que estão grávidas”, afirma. Por outro lado, os imigrantes são relegados para certos trabalhos e “a etnia continua a ser motivo para negar oportunidades”. “Quase toda a gente rejeita o emprego ao cigano. Ou melhor, rejeita o cigano para o emprego”, adverte. A desigualdade de oportunidades verifica-se ainda no acesso ao crédito por parte de imigrantes e de pessoas portadoras de determinadas doenças e no campo da saúde. São muitos os que se vêem privados de cuidados básicos. Por fim, há a situação preocupante dos idosos. Estão “sós e abandonados”.

D. António Francisco encerrou

Semana Cáritas e Semana Missionária

D. António Francisco encerrou em Anadia a Semana Cáritas. Na celebração a que presidiu na Igreja de Arcos, o Bispo de Aveiro afirmou que escolheu esta cidade bairradina, porque “também aqui se ouviram clamores do Povo e se sentiram as angústias das terras e das populações atingidas pelo flagelo dos incêndios [no Verão de 2005] e porque aqui chegou na hora oportuna, com generosidade e diligência, a resposta da Cáritas Diocesana”.

D. António Francisco convidou este organismo da diocese a “ser protagonista da profecia das bem-aventuranças e das obras de misericórdia, como motor da ousadia da caridade”, mas sublinhou que a dimensão solidária faz falta a todos os cristãos. Por isso, pediu “a toda a Diocese que viva em solicitude permanente ao serviço dos pobres”.

Na celebração, o Bispo de Aveiro referiu-se também à Semana Missionária que decorreu no arciprestado. “Eles [missionários e missionárias] percorreram as nossas paróquias e comunidades cristãs. Rezaram connosco e por nós. Anunciaram a Boa Nova com o mesmo encanto com que o fazem em África, na Ásia ou no Brasil, nas cidades ou no sertão e nas favelas. (…) Esta semana deve ajudar-nos a ter uma alma missionária, para que a Igreja se renove, evangelize, cresça e saiba ir ao encontro de quantos também aqui clamam por Deus e de tantos que vivem sem Deus”, disse o Bispo de Aveiro.