Foi preciso muito insistir para que o P.e Arménio Pires Dias acedesse a conversar com o Correio do Vouga sobre os seus 50 anos de sacerdócio, comemorados no dia 21 de Setembro. O jornalista justificou a insistência com a intenção do jornal diocesano passar a dar maior destaque aos padres que fazem as bodas de prata ou de ouro. Tratando-se de pessoas que dedicam a sua vida às comunidades, integrados na Diocese, é uma falha se o jornal não o fizer. O P.e Arménio, relutante, lá se dispôs a receber o jornalista, mas recordou as palavras proferidas na Eucaristia de 21 de Setembro, em Salreu, presidida por D. António Francisco: “Pessoalmente, disse a V. Ex.ª Rev.mª, Sr. Bispo, e hoje o confirmo, com simplicidade e verdade que, para mim, era muito mais agradável que esta data passasse totalmente desapercebida para a maior parte das pessoas do que a sua pública divulgação. Eis a razão por que, no Domingo passado [14 de Setembro], disse, apenas e só, que o Sr. Bispo vinha presidir à Eucaristia que acabámos de celebrar. Louvo todos os sacerdotes que, em datas similares, aceitaram manifestações jubilosas para glória de Deus e como incentivo a que outros consagrem suas vidas a Deus”.
Pároco de Salreu desde 1996 e capelão do Hospital de Estarreja, o P.e Arménio Dias foi ordenado no dia 21 de Setembro de 1958 por D. Domingos da Apresentação Fernandes, na igreja de Oiã. Na altura era essa a prática, em vez das ordenações na Catedral. Com o P.e Arménio, que é natural de Fermentelos, estavam os padres Manuel Simões da Silva e Moisés Marques Amaro, já falecidos.
Depois de ordenado, trabalhou um ano como coadjutor na Gafanha da Nazaré e a seguir no arciprestado de Sever do Vouga, primeiro em Cedrim e Paradela e depois de 1976 em Pessegueiro e Paradela do Vouga. Nesta última paróquia liderou a construção da igreja matriz, obra de que fala com gosto e que tem sido referenciada em diversas publicações. O projecto era de Fernando Seara, “arquitecto [do Porto] com quem se pode conversar”, diz, como elogio. Experiências posteriores revelaram que por vezes os arquitectos são inflexíveis, esquecendo que a prioridade deve ser a funcionalidade do lugar sem apagar a sua dignidade.
Ordenado antes do II Concílio Vaticano (que seria convocado em 1958, mas só teria início em 1962), o P.e Arménio reconhece que os tempos e as mentalidades mudam, mas algo permanece. “O mundo hoje é totalmente diferente. Quando conto aos jovens que o primeiro par de sapatos que tive foi feito por medida num sapateiro, nem acreditam”, relata. Mas a facilidade de acesso aos bens não é a principal mudança. A grande transformação dá-se ao nível dos valores. “Vivemos num tempo de fatuidades. A sociedade chegou a um tal descalabro… Ligámos o rádio ou a televisão e só aparecem crimes, falta de educação, casais que não assumem os seus compromissos”, afirma. O que permanece, então, no meio do descalabro? “A verdade é que nos salva”, diz. Conhecido pela sua frontalidade, o P.e Arménio insiste na tecla da verdade: “A verdade deve ser o fundamento da nossa vida [de cristãos] e o bem o seu fruto. Por isso os pagãos diziam dos cristãos que eles se amavam”. Realçando o valor da coerência, remata: “Nós não temos que nos defender. A nossa vida é que nos defende”.
Na celebração da Eucaristia que assinalou as bodas de ouro sacerdotais, o P.e Arménio teve o gosto de contar com a presença de D. António Francisco (nesse dia completavam-se dois anos da sua nomeação para Aveiro), de D. António dos Santos, Bispo Emérito da Diocese da Guarda, a quem se sente ligado por uma grande amizade, e do P.e Manuel Augusto, natural de Salreu. O padre aniversariante agradeceu de modo especial a colaboração do P.e Manuel de Pinho Ferreira e do Grupo Coral de Salreu. “Bem hajam pela prestimosa colaboração litúrgica, na Missa Paroquial”, disse. “Esta gratidão pessoal penso que, com verdade, a posso estender a todos os cristãos de Salreu”.
J.P.F.
