Poço de Jacob – 92 Hoje em dia faltam, na Igreja e fora dela, palavras amáveis. Falamos das pessoas em termos críticos e dirigimo-nos a elas como se cada uma tivesse culpa por a vida nos correr mal. Os casais não trocam gestos de carinho e delicadeza. Os espanhóis chamam, e muito bem, “detalles que tuviste conmigo”. Os detalhes. Se damos uma rosa a pessoa responde: “Que detalle!!!” Sempre achei que a língua castelhana exprime, como nenhuma, os aspectos mais delicados do sentir humano e, no campo místico, supera a todas.

No Brasil, quando se tratam bem, pois isso de nos tratarmos mal é universal, as pessoas chamam às outras jóia, boneca… Em Portugal soa estranho, como a antiga confusão entre o tu e o você, quando começaram as novelas brasileiras. Eu tenho esse hábito e já me dei mal. Mas, não o perdi, nem o perco. Na Igreja, ouço sempre que é preciso acolher. Mas na hora de uma pessoa se dirigir ao cartório, muitas vezes sai de lá tão humilhada como se tivesse cometido um crime.

Isto de acolher exige da parte de quem serve, na Igreja, desprendimento, valorização da pessoa acima das leis humanas que a Igreja tem, por função pedagógica claro, mas que por vezes velem mais que o bem-estar de uma pessoa. Claro que o nosso mundo é insatisfeito. Por vezes, os casamentos, baptizados e funerais são ocasiões para espectáculo. E querem que o padre seja marionete dos caprichos e exibicionismos. A Igreja tem aí um longo caminho a percorrer… Mas não podemos, em função disto, meter todos no mesmo saco. Sobretudo o padre, mais que pastor, tem de aprender a ser pai. A freira deveria aprender a ser mãe. Quanta frieza das religiosas nos hospitais, escolas, para com os animais. Conhecemos histórias e já as experimentamos. O mesmo acontece com leigos que estão à frente de ministérios e serviços paroquiais, para quem o cargo parece ser poder e os outros apenas servidores, quando o cargo deveria ser só puro serviço. Aqui a Igreja tem um caminho mais longo a percorrer.

Isto tudo para dizer que trato os meus velhinhos do Lar por “jóias” e “bonecos”. Ao ver uma velhinha, digo-lhe: “Olá, Boneca!” Ela, à boa maneira portuguesa, que só vê o mal de cada coisa, responde-me: “Ai, Boneca… aonde isso já lá vai”. E eu digo sempre: “Toda a mulher será sempre uma boneca linda”. Tomei nota disso através de uma freira. A Irmã Letícia, já falecida de cancro, no México. Veio colaborar na fundação da casa das Missonárias Marianas de Nossa Senhora de Guadalupe, em Ouca, Vagos. Sempre alegre, dizia-me que “toda a mulher é boneca para Deus”. E deixou-me como presente esta poesia, antes de morrer, que eu vos ofereço, a ti mulher só, abandonada, que te consideras velha, inútil, feia, gorda… ou simplesmente feliz. Casada, viúva, freira, solteira, divorciada… Lê. Uma mulher idosa e feliz na dor da sua doença declamava isto a toda a mulher triste que se aproximava dela:

Quando te dizem: Amo-te!

Pelos teus olhos de Luzeiro

Pela tua boca de mel.

Quando te gritam: Formosa

Pelas bochechas de rosa

E pelos lábios de Céu.

Pensa que as coisas boas,

Mel, céu e rosas…

São de Jesus.

Que a vida, amor e formosura

São dons da Sua ternura

Que Ele te dá como Luz!

E, quando chegar o dia

No qual ninguém te sorri

Porque envelhecestes….

Ele continuará a ser fiel!

E, ao deixares de ser boneca,

Já com a bochecha seca

E cheia de rugas a tua pele…

Não troques o riso pela tristeza.

Nem as tuas doçuras por fel

Pois continuarás a ser boneca

Para Ele!

E Ele, que te amou sem medida,

Bonequinha dolorida

Ele que por ti deu a vida

Não te esquece nem te deixa,

Como este mundo cruel!

Tu verás, ainda que não queiras

– pelo menos quando morreres –

Que quem te amou de verdade

Nesta vida e mais além… Foi só Ele!

P.e Vitor Espadilha