Brasil: Pessoas alegres e sofridas numa igreja a fervilhar

P.e José Carlos da Silva, de Aveiro, trabalha numa paróquia dos arredores de São Paulo, Brasil, depois de ter sido formador no Seminário Maior de Évora, durante 11 anos, e no Seminário de Malange, Angola, durante dois anos. De passagem por Aveiro em Agosto, antes de regressar ao Brasil falou ao Correio do Vouga sobre o seu actual trabalho e sobre a realidade da Igreja em Angola e no Brasil. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.

CORREIO DO VOUGA – Da última vez que falou a este jornal, há dois anos, estava de partida para Angola. Agora encontramo-lo no Brasil…

JOSÉ CARLOS DA SILVA – Trabalho numa paróquia do chamado ABC de São Paulo. ABC é a cintura industrial de São Paulo: Santo André, São Bernardo e São Caetano. É uma zona onde há muita indústria, principalmente de automóveis, e favelas. Fizeram fábricas, nos anos 60, 70 e 80 do século passado, mas não pensaram em estruturas para acolher os trabalhadores que vieram de todo o Brasil, principalmente do nordeste. O pessoal veio aos molhos, sem casas, escolas, hospital. O pessoal invadiu as herdades em volta das fábricas, num sistema violento. Cada um fez o seu barraco, sem água nem electricidade – comodidades que só agora começam a chegar.

Eu estou numa paróquia com mais dois padres da associação Fraternidade de Sacerdotes Operários do Sagrado Coração de Jesus. Estamos ali porque estávamos no Seminário de Santos, no litoral de São Paulo. Devido a alterações nas dioceses fomos parar a uma paróquia, onde também colaboramos na pastoral vocacional, mas o nosso carisma é trabalhar nos seminários. Em Janeiro próximo, deveremos mudar para o estado de Tocantins, no centro do Brasil, para trabalhar num seminário. Como estamos agora, agitamos várias águas, mas acabamos por não estar em lado nenhum. Se não nos dedicarmos ao que nos é específico, fracassamos.

Como foi parar ao Brasil, visto que estava em Angola, precisamente a trabalhar num seminário?

Estava em Malange, mas sempre num estado de insegurança, uma vez que só tinha visto de turista, nunca de residência, por muito que tentasse. De três em três meses tinha de sair de Angola e regressar como turista. Entretanto, um colega do Brasil conseguiu um visto para trabalhar lá e fizemos, por assim dizer, a troca. Ele foi para Angola e eu fui para o Brasil. Por outro lado, aquilo não era um seminário. Tinha o nome de seminário, mas era um colégio.

O seminário não formava jovens para o presbiterado?

Todos diziam que queriam ser padres, mas chegavam ao último ano e iam-se embora. É próprio daquela realidade. No interior de Angola, não há escolas que funcionem, não há livros, electricidade, vivem em barracos de barro, comem uma vez por dia. O seminário, mal ou bem, tem quatro refeições por dia, casas de banho, água luz, biblioteca, cadeiras… Se quiserem, podem ter 200 moços lá dentro. Têm 80 ou 90, mas aquilo não é seminário. Gastamos as forças sabendo, à partida, que ninguém quer ser padre. É um esquema esquizofrénico. Aprendi muito. Foi uma experiência de pobreza radical, mas eu estava a fazer o quê? Era uma mentira institucional. Insisti algumas vezes com os responsáveis, mas o pessoal queria funcionar assim. Como trabalhei num seminário mesmo, em Évora, sei o trabalho que dá. Trabalha-se muito e por vezes não há resultados. Mas qual era o objectivo em Malange? Era o curso, não era ser padre. Não fazia sentido. Por outro lado, passava o tempo a dar aulas. Dei aulas de Literatura, eu que nem gostava de letras. Distribuíamos as aulas pelos padres e religiosas disponíveis e ficavam sempre umas 40 horas que ninguém queria dar. Não conseguíamos professores para algumas disciplinas e distribuíamo-las entre nós. Eu dei Grego e Literatura Portuguesa. Eu nem sabia que sabia tanto!

Esse desvio entre o ideal e a realidade tem a ver com o país em crescimento, precisando de recursos humanos qualificados, após tantos anos de guerra?

Dentro de todas as limitações, comparado com as outras escolas e seminários, era uma escola excelente, com uma equipa estável, acompanhamento espiritual, ordem. No final da formação, três anos de Propedêutico e três de Filosofia, as empresas e o Estado apanham-nos logo. Vão todos para os ministérios e grandes empresas de Luanda ganhar 700 euros, quando a média dos ordenados é de 100 euros.

Mas há aqui um outro factor perverso. O Vaticano dá dinheiro por cabeça, pelo que convém que os seminários estejam cheios. Parece que estamos a andar para trás. No entanto, a situação pode estar a mudar, porque os recursos financeiros poderão ir para o Médio Oriente e a Ásia. Por isso também já houve bispos angolanos a vir pedir dinheiro a Portugal, quando em Angola é público que esse dinheiro não chega às finalidades para que é pedido. Havia um bispo que pagava a faculdade dos seus familiares, em Portugal, com dinheiro de uma organização de caridade da sua diocese. E depois veio pedir aos bispos portugueses para serem generosos com a Igreja angolana.

Isto tem que se resolver. Só criticar não resolve. Lá, a luta é diária, mesmo com os padres e as religiosas. Os dinheiros têm de ser muito bem geridos. Durante 30 anos, na guerra civil, o pessoal sobreviveu com a ajuda internacional. A Igreja, a única instituição que não abandonou o povo, era quem dava de comer. Durante anos e anos, prevaleceu esta ideia: vou à igreja para comer.

O que é a igreja? É a grande comunidade em que cada um, à sua medida, com os seus dons, dá-se em serviço aos outros. Mas lá a ideia que persiste é que se vai à igreja para receber. A Igreja angolana está numa transição que vai demorar anos. Mesmo ser padre e ser freira está relacionado com um alto estatuto social, talvez como em Portugal, há 60 ou 70 anos.

No Brasil, é diferente?

No Brasil, a realidade é outra. No meio da pobreza e da violência – nas favelas da Venezuela, Brasil e Colômbia morre mais gente do que no Iraque, Palestina ou Afeganistão – há alegria, doação, generosidade. Há crime organizado e polícias honestos. Há muita droga. Todas as famílias viram morrer um jovem por causa da toxicodependência ou dos crimes associados à droga. E todos precisam de Deus. Não há ninguém que não tenha uma religião. Há gente sofrida e muito alegre ao mesmo tempo. Por exemplo, como na zona onde estou só há pessoas vindas de outros lados. Como não havia qualquer estrutura jurídica, não havia Estado, as pessoas organizaram-se para distribuir os terrenos para fazer casas. Uns optaram por constituir comissões e associações, outros optaram pelo crime. No fundo, sempre gente muito lutadora.

Como é o seu trabalho pastoral?

Trabalhamos por comunidades. No espaço da minha paróquia há 70 mil pessoas distribuídas por seis comunidades católicas e 74 ou 75 evangélicas. Os católicos são cerca de metade dos habitantes. As igrejas evangélicas, como se sabe, são autónomas e surgem espontaneamente. Uma pessoa, com uma garagem, pode criar uma igreja. E há igrejas com cada nome… Todas funcionam com o dízimo obrigatório. Na igreja católica, o dízimo é facultativo e funciona pior. Nós acompanhamos as comunidades nas diversas pastorais, da saúde, da família, da infância… Como não há estruturas públicas, a nossa igreja, durante a semana, funciona como escola e como centro de saúde.

Pensar na igreja brasileira é pensar na teologia da libertação, nos carismáticos e nas novas comunidades. Continua a ser assim?

Na Brasil, desde há décadas, cresceram a teologia da libertação e os carismáticos. Na Europa, só se ouviu falar dos excessos da teologia da libertação, mas os carismáticos estavam ao mesmo nível. Acontece é que os carismáticos trazem dinheiro à Igreja. A teologia da liberação, não. Hoje, recupera-se a pastoral do povo, as comunidades eclesiais de base, típicas da teologia da libertação.

Recentemente houve eleições da conferência episcopal brasileira e, surpreendentemente, foi escolhido para presidente o bispo de Aparecida, um homem tranquilo, de equilíbrios. Espera-se que signifique o início do fim da clericalização que se vem sentindo, principalmente em São Paulo.

E quanto às novas comunidades?

É de facto uma realidade muito interessante: três ou quatro jovens juntam-se para rezar a partir da Bíblia, para partilhar a Palavra, e dizem ao pároco o que querem começam a trabalhar na paróquia, assumir um compromisso social. Decidem viver juntos, rezam, partilham, comprometem-se. Isto está a acontecer muito. E esteve na origem de grupos como a Canção Nova ou o Shalom. Curiosamente, primeiro fazem e só depois reflectem e organizam, um pouco ao contrário do que acontece na pastoral na Europa. Por outro lado, estes grupos sentem-se muito à vontade com os meios de comunicação modernos. Com todos os defeitos que podem ter, julgo que são sinais do Espírito Santo.

Coloca a possibilidade de regressar a Portugal?

Não depende só de mim. Depende também dos meus superiores. Somos poucos. Na Europa, não temos vocações. As poucas que há surgem como nos primeiros 20 a 30 anos da nossa associação, que surgiu em Espanha no final do séc. XIX: padres já ordenados que conhecem o nosso trabalho e decidem associar-se. Temos projectos em língua portuguesa em Évora, Malange e Brasil. O problema das vocações sacerdotais está em todo o lado.