Cada um é para o que nasce…

Assim diz o povo, na sua sabedoria e experiência de tempo vivido e provas passadas.

Veio-me à memória o ditado, ao ver o cortejo de candidatos anunciados e dos ainda não anunciados, agora para um partido político, mas em cada dia para tantos outros lugares em que o assento é cómodo, o lugar vistoso, com prebendas que não são de desprezar.

Se há gente que se adapta ao perfil requerido, outros estragam logo o retrato.

Mesmo assim, os inaptos apresentam-se na fila de peito feito. De outro modo, nunca se falaria deles.

“Cada um é para o que nasce” não quer dizer que não sejamos educáveis. Não se trata de um fatalismo. A verdade, porém, é que há muitos pés que não calçam o seu sapato.

Um político que só olha para os seus interesses e para a sua sombra, um padre intransigente e pouco acolhedor, um professor sem tacto nem paciência, uma autoridade de segurança que só sabe o que diz a lei e não lhe interessam as pessoas, um médico sem tempo para escutar os doentes e deles só espera os honorários que vai receber – a lista dos que estão fora do lugar não tem fim – mostram a verdade do ditado.

Mas onde está o mal numa sociedade onde alguns esmagam outros para chegar à frente e fingem para parecer o que não são? O mal está na engrenagem, pois que uma peça fora do lugar, nem funciona, nem deixa funcionar.

Haja aí quem diga que nunca foi tolhido ou mesmo magoado por gente que não está no seu lugar, mas que se julga a melhor e a mais insubstituível.

António Marcelino