Questões Sociais Muita gente, comentadores/as ou não, considerou fraca a campanha para a eleição do Presidente da República. Contra a campanha foram utilizados adjectivos muito pouco abonatórios, tais como «pobre», «medíocre», «errada», a «mais fraca» dos últimos trinta e tal anos de democracia.
Esta adjectivação, supostamente crítica, é sobretudo auto-crítica: Na verdade, os meios de comunicação social, os/as comentadores/as, os«grandes» peritos, as conversas de rua, as forças políticas, sociais e morais…, com uma ou outra rara excepção, foram tão fracas, durante a campamha, como os candidatos; estes sofreram a humilhação, e tiveram o mérito, de patentear, neles próprios, as limitações de quase toda a gente. Tais limitações de toda a gente foram particularmente notórias na falta de propostas de solução alternativas para os problemas nacionais e na própria leitura da realidade interna e internacional. Continua a grassar, por toda a parte, o maniqueísmo primitivo e caluniador, segundo o qual as autoridades portuguesas são intrinsecamente más; por isso não resolvem os problemas só porque não querem. É evidente que as autoridades têm falhado, e continuam a falhar, em muitos aspectos; mas isso não deveria dispensar os contestatários de formular propostas válidas nem de provar a respectiva consistência.
O povo escolheu entretanto o Presidente da República. Façamos votos de que o candidato eleito esteja imbuído da sua missão constitucional, disponível para cooperar com os demais órgãos de soberania e com todo o povo. À luz da Constituição, muito lucraria o país se o Presidente eleito se empenhasse, de maneira sistemática, em: Transmitir e alimentar a consciência das interdependências e da co-responsabilidade; congregar esforços das forças políticas, sociais e morais, a favor do respeito mútuo, da co-responsabilidade efectiva e dos consensos possíveis; facilitar o diálogo entre aquelas forças, sem pretender liderá-lo nem, tão pouco, actuar como árbitro; e atribuir toda a prioridade ao esforço comum para a erradicação da pobreza e exclusão.
Estas preocupações não surgiram claramente, durante a campanha, em nenhuma das candidaturas; mas nada obsta – antes pelo contrário – a que sejam assumidas pelo Presidente eleito. Enquanto não resolvermos os problemas da harmonia interna e da co-responsabilização interna e externa, continuaremos a afundar-nos, mesmo quando não parece.
