Candeia ou capacho?

A àrvore de Zaqueu Só um masoquista gostaria de ser «pisado pelos homens», usando as palavras de Jesus. É gente que se entrega ao conformismo, não resistindo aos que fazem deles capacho, parecendo ter prazer em espalhar queixumes, a falar mal dos outros e sobretudo apresentando-se como vítimas dos “chefes” e dos “poderosos”. Por causa desses “masoquistas”, a injustiça não é denunciada nem combatida. É gente que não faz render as suas potencialidades: «só serve para ser lançada fora», utilizando outra expressão de Jesus.

Acontece também que alguns desses tais chefes e poderosos gozam com a humilhação infligida aos outros (isto é sadismo), embora sabendo que estão a juntar lenha para se queimarem (acabam por ser também masoquistas…). Pisam os homens, sabendo que hão-de ser pisados pela humanidade inteira, por não terem utilizado para o bem as suas posições de chefia e de poder. E se tiverem alguma consciência, também por esta serão pisados, por se terem deixado enfartar como animais numa jaula doirada (outra expressão da Bíblia).

Será que há assim tanta gente a gostar de «ser pisada»?

E não parece fácil mudar esse gosto: faltam, hoje em dia, muitos profetas como Isaías, a denunciar sem medo a podridão, mas também a apontar o remédio: «Se tirares do meio de ti a opressão, os gestos de ameaça e as palavras ofensivas, se deres do teu pão ao faminto (…), a tua luz brilhará na escuridão e a tua noite será como o meio-dia» (1.ª leitura).

E depois, há aqueles que, no momento de começarem a agir, desculpam-se ou demitem-se, queixando-se de que «herdaram uma pesada herança»! Não sabem aumentar a chama que ilumina: ou apagam o bem já feito, por muito pouco que seja, ou provocam um incêndio para acusar o antecessor de criminoso, inimigo do bem comum. Preferem que todos voltemos à estaca zero: isto já é mistura explosiva de masoquismo e sadismo!

Sem dúvida que ninguém é perfeitamente justo – como também ninguém é totalmente injusto. Em todos nós há «luz», como em todos nós há «sal» para condimentar o mundo. O julgamento severo de Jesus Cristo, na parábola dos talentos, não é contra quem faz pouco – é contra quem não faz aquilo que está ao seu alcance. Aplica-se o provérbio: «O trabalho do menino é pouco, mas quem o despreza é louco».

Jesus não desclassificou João Baptista – muito pelo contrário. E foi buscar ao Antigo Testamento todo o bom material para o seu grande empreendimento. Boas e más experiências aguçam o nosso engenho!

Para este trabalho, não precisamos de «linguagem sublime» nem de sabedoria espalhafatosa, como escreveu S. Paulo. Não precisamos de ser milionários ou colunáveis – embora tudo isso pode ajudar! Precisamos, sobretudo, de nos apresentar com o entusiasmo humilde e corajoso de quem anuncia e abre caminho para a Luz.

Só falta uma daquelas notas em letra muito pequenina que estragam os contractos mais generosos: É à conta de cada qual acontecer-lhe o mesmo que a Jesus – ser crucificado porque a luz incomoda as trevas.

Jesus e os seus discípulos não podiam procurar o sofrimento, e até temos o dever vital de procurar prazer. O que implica prevenir e combater a crueldade. Como implica saber que os valores superiores de modo algum eliminam os que racionalmente são considerados menos elevados. O prazer de coisas pequenas é bem mais refrescante quando fortalece a amizade e possíveis grandes projectos. E o prazer duma relação sexual é muito mais inebriante quando o fazemos por amor.

Não é fácil evitar chicotadas de falsos amigos ou dos que se sentem ameaçados pela nossa exigência de justiça. Apesar de tudo, como diz o evangelho de hoje, as nossas boas obras estimulam os outros para fazer da vida uma festa de luz («Deus» significa «Luz») e a usar apenas os capachos em que limpamos os pés…

Manuel Alte da Veiga