A Árvore de Zaqueu*
* «Porque era de baixa estatura, subiu a uma árvore para ver Jesus» (Lucas 19,3-4)
Se treparmos até ao cimo, todas as coisas da vida servem para ver melhor.
4.º Domingo do Advento (Ano C)
1.ª Leitura: Profeta Miqueias 5, 1-4
2.ª Leitura: Carta aos Hebreus 10, 5-10
Evangelho: S. Lucas 1,39-47
Cantou o Miqueias, cantou a Judite e o velho Isaías; cantou o Zacarias e um senhor desconhecido mas grande admirador de Paulo de Tarso… e não faltou aquele médico erudito mas tão simples e simpático, lembrando comovido os cantares da Mãe de Jesus e da prima Isabel.
O elenco, se bem que todo ele consagrado, integra alguns elementos menos na berra, ou então aqui mal referenciados:
Judite, cujo nome significa «a judia», ficou famosa pela valentia equilibradamente alicerçada em Deus, tendo arriscado a vida e a reputação para libertar Israel do inimigo – qualidades que fizeram dela a imagem da mãe de Jesus. Terá vivido cerca de 600 anos a. C. e dá o nome a um dos livros da Bíblia, onde se encontram vários cânticos – pedidos de ajuda ou acções de graça. O «Magnificat» e a liturgia dedicada a Nossa Senhora inspiram-se nalgumas passagens deste livro. Fica bem convidá-la para o festival.
Nem convinha pôr de parte Zacarias, mencionado no evangelho de hoje, mais conhecido pelo brilhante solo sobre o seu filho João precursor de Jesus (Lucas 1,67-79), sendo mais tarde acompanhado por Simeão (Lucas 2,29-35).
Quanto ao «senhor desconhecido», é nada mais nada menos o autor da carta aos Hebreus, onde se canta em grande estilo o mistério e a condição gloriosa de Jesus.
Miqueias, de quem é a 1.ª leitura, apresenta o Messias sonhado envolto na neblina do tempo, enraizado na história humana e nas aspirações longínquas da humanidade. Terá vivido no séc. VIII a. C.. Sem estatuto social aparente, longe dos círculos do poder, teve que enfrentar sozinho a corrupção do seu tempo (dos políticos, sacerdotes e outros falsos profetas), confessando claramente que só tem apoio no Senhor (3,8). A sua notória sensibilidade ao sofrimento do povo e a um Deus que tanto se entristece com a injustiça como abre os mais audaciosos horizontes de alegria e de paz, faz dele um personagem bem simpático e a condizer com esta época do Natal.
Os demais já devem ter ganho vários discos de ouro. Isaías, o majestoso profeta das dores e alegrias, canta logo à entrada da liturgia de hoje. Ficou célebre o seu «rorate» – a beleza deste poema é mais transparente na língua latina em canto gregoriano. É um grito de esperança e de júbilo: que o Justo venha dos céus, como a chuva e o orvalho fertilizantes; e que a terra se deixe seduzir pela força da semente e germine a salvação. (Apesar dos invasores transgénicos da justiça, Deus achou que havia condições para uma cultura sadia…).
Para o incógnito admirador de S. Paulo (2.ª leitura), o nascimento de Jesus é a manifestação pública, simbolizada na Festa dos Reis, do compromisso sem medo nem vergonha de pôr a vida ao serviço dos outros, apesar da fragilidade dos começos – como se pode ver num menino. Podemos dizer que não é só a Deus mas a toda a humanidade que Jesus diz: «Eis-me aqui».
Entre Jesus e João (o Baptista, não o Evangelista), havia uma misteriosa ligação, já desde o ventre materno (evangelho). Quando Maria e Isabel se encontraram, ambas grávidas, a mãe de João sentiu o filho estremecer. O médico das cantigas (também conhecido por S. Lucas, o evangelista) soube trazer à baila todas as deixas possíveis de célebres cantadores de Deus (não só das duas primas como também dos já mencionados Zacarias e Simeão, para além de muitas alusões a textos antigos). E aproveita para exaltar (não fosse ele médico…) o maravilhoso papel das mães.
Toda a gente gostou do espectáculo e o costume pegou: pelos tempos fora, desde que Jesus morreu e entrou na alegria de que falava e que nos quer transmitir, não faltam seguidores, simpatizantes e até meros «turistas», a cantar, a dançar e a encher a História de obras de arte ou de graffiti mais ou menos felizes.
Nas tradicionais cantigas ao desafio, as ideias prendem-se como cerejas, unidas pela rima das palavras e sobretudo por um sentimento condutor de alegria. Algo semelhante se passa com o que se escreve e canta na longa tradição religiosa judeo-cristã. Foi assim que S. Jerónimo, a quem se deve a célebre tradução latina da Bíblia («vulgata» ou versão «divulgada»), foi encontrando, nos mais variados livros que a compõem, prefigurações do verdadeiro Messias. Desta forma, os cânticos de Isaías lembravam o «servo de Deus» sem defeito; igualmente a Jesus Cristo se aplicava o «Rorate» (na realidade, Isaías referia-se directamente a Ciro «o Grande», fundador do império persa e libertador de todos os povos subjugados por Babilónia, o que lhe valeu ser chamado de «Messias» – «Ungido» por Deus para uma grande missão). E à Mãe de Jesus assentava na perfeição o oráculo de Isaías sobre a «jovem mulher» (7, 14, designando certamente a rainha) que a seu tempo daria à luz um rei justo e salvador, como a seu tempo o orvalho fecunda a terra. Mas esta intuição de que tudo está ligado e se orienta para a perfeição da justiça e da alegria (atributos fundamentais de Deus) já se verifica nos próprios evangelistas e outros autores. S. Mateus, por exemplo, ao citar a leitura de Miqueias sobre a «pequena Belém» (a terra de David), diz: «E tu, Belém, de modo nenhum és a menor entre as principais cidades de Judeia» (2,6).
Os profetas pegavam na deixa do desejo ardente de que surgisse depressa o salvador – nunca é cedo demais para colaborar no plano da salvação do mundo. Foi com esta «urgência» (termo na moda) que Jesus virá a falar aos seus apóstolos e a quem quiser segui-lo. Também é «apressadamente» que Maria partilha o seu segredo com Isabel. Foi uma atenção à prima, mas sobretudo exemplo de delicadeza com sacrifício. Um dos traços de nobreza da mãe de Jesus foi o de saber meditar sobre o que se passava com ela e à sua volta, por muito estranho e penoso que tudo parecesse (Lucas 2,51) e longo se mostrasse o silêncio de Deus.
Também todos aqueles que não têm vergonha de se mostrar amigos de Jesus, chamado o Cristo, continuam a cantar versos lindos e músicas gostosas, mesmo sabendo que muitas vezes não se devem deixar levar pelas cantigas e que o lindo e o gostoso é mesmo muito relativo… Cantam para todos ouvirem, apreciarem e não esquecerem. Cantam os factos, ideias e sentimentos que moldaram esta cultura, cristã de origem (seja qual for a posição de cada qual quanto ao cristianismo ou à religião em geral).
Só não se aceitam cantadores mercenários. De resto, todos são bem-vindos ao grupo dos que cantam o desafio da vida, pegando e largando as deixas de bom agir e de esperança, despertando o sorriso dos humanos e de Deus.
Manuel Alte da Veiga
