1 – Diga lá, excelência: “O que falta mais a Portugal?” – disparou a entrevistadora. E a resposta do entrevistado foi mais rápida ainda, sem qualquer espécie de hesitação: “Capital humano!”.
Não é crível que estivesse no seu pensamento o problema do “inverno demográfico” que atravessamos, se bem que não deixe de ser problema. Sem dúvida que o problema é a qualidade da humanidade – ou falta dela – de uma parte substancial da nossa população.
2 – De novo me assaltam as preocupações de modelos e projectos educativos que, progressivamente, têm vindo a ser esvaziados de formação humanista, em favor de uma super-colonização da tecnologia, do económico, da ciência (?), da competitividade – robotizada, em função de mercado de trabalho, sem rosto, desumanizada – mesmo naquelas áreas que têm necessariamente de lidar com a pessoa humana como tal.
3 – De 2 de Novembro a 7 de Dezembro de 2003, D. José Policarpo e Eduardo Prado Coelho fizeram, no Diário de Notícias, um diálogo epistolar deveras interessante. Dizia D. José Policarpo, na carta 2: “É nosso papel, dialogando um com o outro, fazer com que os nossos leitores entrem no diálogo, aceitando essa atitude sadia de reflectir sobre a vida, de escancarar o espírito a novas descobertas da verdade, concebida esta como inspiradora de ‘sentido’. (…)
Esta questão do diálogo foi dimensão importante na formação da minha geração de jovens católicos, que vivemos apaixonadamente o Vaticano II. Frente ao mundo contemporâneo, a Igreja redescobria-se, não como poder, mas como ‘enviada em missão’, portadora de ‘um sentido’, num desejo de escuta e compreensão do homem contemporâneo, com quem partilhar as alegrias e tristezas, as esperanças e as angústias de uma história comum. (…) E hoje, num momento em que o mundo está à beira de um conflito de civilizações, o diálogo inter-cultural e inter-religioso continua a aparecer-me como a única saída digna do homem.”
4 – Na percepção de que a glória de Deus é o Homem integral, que só na luz de Jesus Cristo se descobre, se aprecia, se ama, João Paulo II foi o gigante moral e espiritual, que viveu e anunciou, em todos os tons e a todos os quadrantes, que o Homem é a única via da Igreja. Viveu e anunciou a aproximação cultural e religiosa com todos, como caminho de dignificação de toda a pessoa humana. Por isso, a humanidade inteira se curvou perante a estatura da sua santidade profética.
5 – Alguns reconhecem que a legítima separação das Igrejas dos Estados não pode confundir-se com a pretensão de separar as Sociedades das Igrejas, do Religioso, da Espiritualidade. E dizem-no sem medo! Mas outros, mesmo curvando-se diante dos desafios proféticos do Papa Woitilla, alimentam uma jacobina hipocrisia de neutralidade. Nesse caso, por muito que cresça o capital económico, científico, tecnológico, seremos sempre deficitários em capital humano, o único capaz de plasmar um futuro de sustentada esperança. Qual a razão que nos leva a sermos teimosos em não querer que integre os sistemas e processos educativos a consideração daquilo que dá figura ao humanismo, que faz mergulhar no ‘sentido’ – o fenómeno religioso?
