Questões Sociais A propósito da grave crise financeira desencadeada nos Estados Unidos da América, alguns comentadores entenderam que a mesma pôs em causa os excessos do capitalismo. Um ou outro invocou, para reforço desse ponto de vista, a rejeição do «capitalismo selvagem» por João Paulo II, sobretudo na encíclica «Laborem Exercens». Esta invocação é correcta, mas parcial: parcial porque a rejeição dos valores interentes a tal capitalismo não é recente, mas remonta ao próprio Evangelho e foi uma constante ao longo de toda a história da Igreja; parcial também porque a rejeição faz parte integrante da mensagem cristã, e não resulta de conjunturas ou oportunismos.
Três eixos doutrinários modulam a essência dessa mensagem, no domínio social: um consiste na relativização dos «bens deste mundo»; a outra centra-se na justa repartição dos bens, de tal modo que a ninguém faltem os necessários; e o terceiro tem a ver com a responsabilidade do Estado e de toda a sociedade, para que funcionem ao serviço da pessoa humana. Daqui decorrem três linhas de orientação específicas para a economia: liberdade, regulação e socialização.
O n.ºs 42 e 43 da encíclica «Centesimus Annus» sintetizam bem estas orientações, embora não refiram expressamente a socialização; esta figura na «Laborem Exercens» e em outros documentos do Magistério, a partir de João XXIII na encíclica «Mater et Magistra», n.ºs 59-67. A socialização, neste contexto, não é redutível a nenhum socialismo, seja ou não marxista; primeiro porque não se caracteriza como um sistema económico entre outros, mas sim como um quadro orientador; e, depois, porque é mais exigente do que todos os socialismos. Na verdade, ela não é compatível, nomeadamente, com a exclusão da livre iniciativa económica ou da democracia, nem com o capitalismo de Estado ou outras degradações de algumas correntes socialistas.
Não se pode afirmar que a aplicação oportuna dos grandes princípios da DSI teria evitado a actual crise financeira, uma vez que a imperfeição acompanha todas as realizações humanas. Contudo, pode afirmar-se que a crise não teria resultado da concentração de riqueza, de rendimentos e de poder. E pode afirmar-se também que as respostas à crise seriam diferentes daquelas que se estão a verificar até este momento (25.09.08): em vez de as respostas se centrarem nos mercados financeiros, favorecendo prioritariamente os grandes interesses, teriam como centro as actividades económicas, a concertação social na procura das melhores soluções e a preocupação de serem beneficiadas prioritariamente as pessoas e famílias de menores recursos. Não se diga que tudo isto não passa de mera utopia irrealista. Pelo contrário, é de notar que os países nórdicos já procedem, em geral, deste modo, muito embora ainda fiquem aquém dos imperativos daquela doutrina.
