«Capturados pelo sistema»

Questões Sociais No seguimento do artigo anterior, justifica-se uma alusão a um livro publicado recentemente pelo Dr. Jorge Nascimento Rodrigues, sob o título: «Como o Capital Financeiro Conquistou o Mundo – Breve História de Cinco Revoluções Financeiras» (edição do Centro Atlântico). Significativamente, o livro serviu de base a uma qualificada intervenção do autor numa conferência sobre economia social, promovida pela CASES – Cooperativa António Sérgio para a Economia Social – e realizada na Fundação Calouste Gulbenkian, em 10 de setembro. Conjugando a mensagem do livro (que abordarei mais detidamente noutra oportunidade) com a situação económico-social do país, será legítimo afirmar que hoje estamos a ser capturados pelo sistema financeiro através de, pelo menos, cinco vias: a imposição direta e sistemática; o nosso colaboracionismo; a contestação sistemática; a mistificação ética; e a alienação política.

A imposição do capital financeiro processa-se, nomeadamente, pela concentração de riqueza, pelo fomento de desigualdades sem limites e, na base de tudo, pelo seu poder trans-soberano; este poder transcende a soberania dos Estados e das entidades bancárias, ou outras, que atuam dentro da legalidade; não dispõe de centros visíveis mas, no limite, é comandado pelo mundo subterrâneo que atua em toda a parte. O nosso colaboracionaismo com ele traduz-se, nomeadamente, na luta pessoal e grupal por desigualdades, a nosso favor, bem como na praga do consumismo e na irresponsabilidade coletiva. A contestação sistemática de governos democraticamente eleitos nunca se dirige ao âmago do sistema financeiro; ingenuamente, procede como se o âmago estivesse nos governos, bancos e noutras entidades que, melhor ou pior, vão atuando no quadro legal; também ingenuamente, procede como se os governos fossem os criadores do sistema e dispusessem de poder suficiente para o alterar; por isso, enquanto a contestação se perde nestes desvios, o sistema «agradece», expande-se e reforça-se (continua).