Carlos da Silva Melo Guimarães e a “Fonte Nova”

Aveirenses Notáveis Nascido em 1850, Carlos da Silva Melo Guimarães foi proprietário da Fonte Nova, fábrica que “deu cartas” na azulejaria artística.

No ano de 1850, nasceu em Aveiro Carlos da Silva Melo Guimarães, filho de Manuel Luís da Silva Guimarães e de Joana Cândida de Melo, e irmão de Luís da Silva de Melo Guimarães.

Carlos Guimarães distinguiu-se sobretudo como industrial cerâmico, primeiro na Fábrica de Louças da Fonte Nova e mais tarde na Fábrica de Cerâmica da Fonte Nova, época em que surgiram algumas grandes unidades industriais de cerâmica nas margens do Canal do Cojo / Fonte Nova, das quais hoje resta somente parte do edifício da Fábrica de Cerâmica Jerónimo Pereira Campos, atual Centro Cultural e de Congressos de Aveiro.

A par da sua atividade empresarial, Carlos Guimarães desempenhou ação relevante na sociedade aveirense dos finais do século XIX e inícios da centúria seguinte, estando na génese da primeira escola de desenho e modelação existente em Aveiro, como refere Manuel Ferreira Rodrigues na obra “A indústria cerâmica em Aveiro (Finais do séc. XIX – inícios do séc. XX)”. Quando o então ministro das Obras Públicas, Bernardino Machado, visitou a cidade de Aveiro, no dia 1 de setembro de 1893, deslocou-se à fábrica de Carlos Guimarães, tendo-lhe este solicitado a criação de uma escola industrial em Aveiro, pedido que se tornou realidade através de uma portaria de 28 de outubro desse mesmo ano, a qual também respondeu favoravelmente a idêntico desejo manifestado anteriormente pela Câmara Municipal de Aveiro. Essa escola deu origem à Escola Fernando Caldeira, que depois de ter sido Escola Industrial e Comercial de Aveiro é atualmente a Escola Mário Sacramento.

Já em 1884, juntamente com Pinto Basto (da Fábrica da Vista Alegre), Carlos da Silva Melo Guimarães pretendia criar uma “aula de desenho e modelação” em Aveiro, ano em que foi um dos fundadores da Nova Sociedade d’Indústria e Recreio – Grémio Aveirense. Foi também um dos três diretores da Associação do Teatro Aveirense e, em 1891, integrou a Comissão de Recenseamento Eleitoral.

Ainda em termos empresariais, Carlos Guimarães teve, em Aveiro, uma fábrica de velas de cera, um estabelecimento comercial de cereais e outro de tabacos.

Fábrica da Fonte Nova

A Fábrica de Louça da Fonte Nova foi a empresa que mais nome deu a Carlos Guimarães devido à qualidade dos seus produtos, com destaque para a azulejaria artística, havendo ainda inúmeros painéis “Fonte Nova” espalhados um pouco por todo o país.

Manuel Ferreira Rodrigues, no citado trabalho, diz que foram fundadores da Fábrica de Louças da Fonte Nova “Norberto Ferreira Vidal e Luís de Melo Guimarães”, sendo de realçar o facto de o primeiro, “negociante, de Vagos, então a residir em Aveiro”, ser pai do bispo D. João de Lima Vidal. A empresa foi criada por escritura datada de 31 de dezembro de 1881. Em 28 de fevereiro de 1886, Norberto Ferreira Vidal cede a sua quota a João Gonçalves Gamelas, que, por sua vez, em 8 de maio desse mesmo ano, a cede a Carlos da Silva Melo Guimarães que, ainda nesse ano, ficou com a totalidade da empresa, uma vez que o irmão Luís Melo Guimarães foi destacado para a comarca de Angra do Heroísmo, transitando mais tarde para a de Penacova.

Gilberto José Ferreira Martins, na obra intitulada “Influência do revestimento azulejar na permeabilidade da fachada”, refere que “A Fábrica da Fonte Nova (ou Empresa Cerâmica da Fonte Nova) nasceu em1882, pela vontade de três irmãos da família Melo Guimarães: Carlos, António Carlos e Luís. Desde cedo se distinguiu na produção cerâmica, louça decorativa e pintura de azulejos, apresentando-se, logo em 1883, na Feira-exposição do Porto, e, depois, em diversos certames internacionais”.

No entanto, Manuel Ferreira Rodrigues realça que a Empresa de Cerâmica da Fonte Nova foi fundada por escritura assinada em 27 de maio de 1903, tendo como fundadores os irmãos Carlos, Luís e António da Silva Melo Guimarães. Ao contrário da Fábrica de Louças da Fonte Nova, que produzia louças e azulejos, esta fábrica dedicava-se á produção de tijolos e telhas.

Cardoso Ferreira

Pintores de renome nacional

A Fábrica de Louças da Fonte Nova teve um papel relevante na azulejaria artística, sobretudo pela mão de pintores de renome nacional, como Francisco Pereira e Licínio Pinto. Gilberto José Ferreira Martins, no já citado trabalho, nota que “nos anos primeiros de 1900, contando no seu corpo de operários alguns artistas”, a fábrica “aceita os desafios da arte nova e produz, neste campo, painéis de excelente qualidade e também azulejaria de tapete, em relevo ou simplesmente estampilhado, quer floral, animal ou geométrico, para muitas aplicações”, sublinhando ainda que “foi, de facto, uma produção em grande quantidade e, por vezes, de excelente qualidade”.

Este autor enumera algumas das fachadas que ostentam azulejos “Fonte Nova”, entre as quais, a “atual Casa de Santa Zita (e os painéis do interior) e a da Estação de Caminhos de Ferro ou, numa conceção arte nova, a fachada da Cooperativa Agrícola, a casa de Francisco Rebelo dos Santos, os painéis da casa na Rua Manuel Firmino, a casa Testa e Amador”, enquanto fora de Aveiro aponta “a casa do Dr. Seabra de Matos na Mealhada, a Estação dos Caminhos de Ferro, na Granja (Espinho), a casa de António de Oliveira Simões, em Salreu, a mercearia de António Nunes de Ana (Aradas)”.

Gilberto José Ferreira Martins diz ainda que “de facto, as siglas FN, simplesmente, na frente ou no verso dos azulejos, em relevo, e de forma mais extensa o nome Fonte Nova multiplicaram-se por dezenas e dezenas de prédios, no interior como no exterior, em jardins públicos ou em recônditos espaços religiosos, nas cozinhas ou em quartos de banho, versando uma infinidades de temas que não são fáceis de catalogar, a pedido dos encomendantes ou por produção definida na fábrica, em função das aptidões dos artistas”.

A fama da “Fonte Nova” passou fronteiras, muito por causa da participação da empresa em feiras e eventos realizados não só em Lisboa e Porto, mas também no estrangeiro, com destaque para a Exposição Internacional de Antuérpia, realizada em 1894.