Carta a Deus

Texto Pai, amo-te mais que tudo.

Antes de tudo, porque és aquele que pode dizer EU SOU. E tê-lo percebido quando tinha dezasseis ou dezoito anos faz com que, aos noventa e três anos, eu continue a viver disso.

Amo-te mais que tudo. Porque:

– ao homem que, ao longo de toda a evolução, não cessa de se julgar suficiente, dás Jesus, o Verbo, para provar que o homem não se basta;

– enquanto nos estafamos por querer números, Tu dás o indizível que, na Hóstia da Eucaristia, se torna mais forte que a dúvida;

– na atmosfera sufocante, substituis o sopro, spiritus, do Espírito Santo que nasce da união do Pai e do Verbo amando-se em que nos banhamos.

Sim, Tu és o meu amor.

Não suporto viver tão longe a não ser com esta certeza em mim: quer se creia quer não, morrer é Encontro.

Amo-te mais que tudo.

Sim, mas… Para ser crente credível, é preciso que todos à minha volta saibam que não aceito, que nunca poderei aceitar a permanência do Mal.

SER, Tu és dono da manutenção ou da cessação da existência de tudo o que existe. Então, se tens o poder de fazer cessar, como se entende que o Mal subsista?

A oração de Jesus não culmina com «Mas livrai-nos do Mal»?

Obrigado, Pai, por me teres ajudado a rejeitar, o que seria uma trapaça, «crer» como se eu fosse indiferente à perpetuação do Mal, não só neste mundo, mas também além do tempo.

Crente, amante, não posso deixar de ser este «crente apesar de tudo», quer dizer, que não compreende nada.

Muitos dos meus irmãos humanos continuam na fronteira de te amar, afastados pela necessidade deste «apesar de tudo». Tem piedade deles e tem piedade do Universo.

Pai, desde há muito, espero viver na tua PRESENÇA total que é, nunca duvidei, apesar de tudo, AMOR.

Abbé Pierre (1912-2007)