DOMINGOS CERQUEIRA
Meu caro órgão: tenho lido com muita atenção as tuas mensagens, que de há umas semanas atrás tens feito publicar no “Diálogo” (folha dominical da paróquia da Glória, Aveiro). Contas nessas tuas mensagens a tua ainda curta vida, desde a tua concepção. Dizes que o teu ADN garante que serás um ser “alto, elegante e moderno”. Passando ao lado desta tua manifestação de vaidade pelos teus atributos, desejo de todo o coração que esses atributos venham a estar perfeitamente bem enquadrados com a nossa Sé, que tu ainda não conheces, mas que dentro em breve fará parte de toda a tua vida. Dizem já, por certo algumas más-línguas, que as tuas linhas arquitectónicas são minimalistas? Por certo é porque ainda não tiveram a oportunidade de te conhecer. Penso que já terás tirado alguma fotografia, quanto mais não seja para os documentos que te permitirão passar as fronteiras, desde a Hungria até Aveiro. Se tiveres já alguma fotografia, nem que seja de bilhete de identidade, manda-a para cá, que alguém se encarregará de a mandar ampliar, para permitir que todos nós, os paroquianos da Glória, possamos começar a admirar as tuas linhas modernas. Dizes que adorarias que gostassem de ti. Não sei se já te chegaram aos ouvidos algumas vozes mais discordantes com o teu nascimento. É verdade, mas foi apenas o resultado de muitos de nós não estarmos a contar com este nascimento não programado, ainda por cima numa altura em que por estas terras alguns paroquianos vivem com muitas dificuldades. Mas nós, cristãos, estamos habituados a receber os filhos que Deus nos quiser dar. E se no coração de alguns algumas dúvidas existiram, penso que já todos ansiamos pelo teu nascimento. E também eu adoraria vir a gostar de ti. E também eu espero vir a adorar, através da tua voz, o Deus a quem todos nós queremos, cada vez mais, adorar mais e melhor. Não te posso prometer que irei cantar, quando tu cantares. É que canto tão mal que até tenho vergonha de distrair as pessoas se o tentasse fazer. Mas ajuda-me a sentir muito mais perto de Deus, sempre que tenho a felicidade de ouvir os sons de um qualquer irmão teu, ao ser embalado por quem é capaz de pôr as suas cordas vocais a funcionar. Espero um dia poder passar na nossa Sé, que será a tua casa, momentos de grande intimidade com Deus, com a tua ajuda. Dizes que a “madeira a usar no teu esqueleto está há anos a curar, ao sol e à chuva, à neve e ao frio”. Vê lá se tanta intempérie não te faça mal, não vás tu chegar a Aveiro rouco, não vás tu sentir a falta, em Aveiro, de alguém que afine a tua voz, para que aconteça “a todos poderes servir proporcionando momentos de beleza e encanto”. Dizes que já bateste à porta de algumas pessoas, para ajudarem ao teu nascimento. Já agora, seria bom que ao lado da tua fotografia a afixar à porta do teu futuro quarto, da tua casa que será a Sé de Aveiro, aqueles que terão de pagar o biberão e o leite para te amamentar, e no futuro o teu pão de cada dia, saibam quanto terão de amealhar, para te verem a crescer, são de corpo e alma, para deleite de todos nós.
Dizes saber de pessoas que já gostavam de ti, mesmo antes de teres nascido. Por certo tiveram a felicidade de ver alguma ecografia do ventre da tua mãe. Mas nós, a generalidade dos teus futuros paroquianos, não tivemos essa sorte. Não seria bom que te fosses dando a conhecer, para que cada vez mais pessoas vão gostando de ti? Já agora quero-te dizer, que fiquei altamente preocupado com o teu desabafo de que alguns dos teus irmãos de raça, que antes de ti vieram para outras terras de Aveiro, não tiveram um final feliz e hoje serão já considerados como seres inúteis. Espero com toda a sinceridade que os amigos que ajudaram a dar-te à luz, nessas maternidades longínquas, criem condições para que na Sé de Aveiro possas ter uma vida feliz, e nunca te sintas um objecto inútil, encostado a um canto e só a servir de estorvo, como, e como afirmas, já acontece com alguns da tua raça, que dentro em pouco serão teus vizinhos. Espero e acredito que os teus pais tenham acautelado cuidadosamente o teu futuro, para que contigo não venha a acontecer nada de semelhante.
Olha: desejo-te as maiores felicidades. É tradição de Aveiro saber receber os que para aqui vêm para conseguir o pão nosso de cada dia. Há muitas centenas de aveirenses que não nasceram por cá. Mas, pela maneira afável como foram recebidos, em pouco tempo se sentiram tão aveirenses como aqueles que viram a luz à sombra das igrejas de Aveiro, e os primeiros sons que ouviram foi o som dos sinos das nossas torres. Não te desejo mais do que isso: que, assim que vires a luminosidade do nosso céu e os canais da nossa ria, te sintas tão aveirense como nós, e porventura muito mais admirado do que qualquer um de nós.
Até um dia destes.
