Casa de Santa Zita: meio século ao serviço da família

Instituições, Grupos e Serviços de Pastoral Social na Diocese de Aveiro – 1 A Obra de Santa Zita surgiu em Portugal na cidade da Guarda, com aprovação eclesiástica e civil em 1932. Foi seu fundador o padre diocesano Joaquim Alves Brás, que nasceu na aldeia de Casegas, em 20 de Março de 1899. Joaquim Alves Brás recebeu a ordem de Presbítero em 1925 e logo de seguida foi nomeado Pároco das Donas, na diocese da Guarda.

O padre Alves Brás, ao fundar a instituição, escolheu para sua Padroeira uma mulher trabalhadora doméstica de origem italiana que viveu no século XII, que numa família rica trabalhou e se santificou auxiliando os mais pobres, que todos os dias batiam à porta dos seus senhores. Esta obra foi fundada para a classe mais pobre e desprotegida dessa época: as criadas de servir.

“Como Pastor que procura a ovelha perdida, o Pe Alves Brás procurava conhecer o terreno e a situação através dos párocos; procurava saber qual a necessidade que mais se salientava na sociedade aveirense”, refere Maria Virgínia Reis. E acrescenta: “Foi informado e pôs mãos à obra. As criadas precisavam duma casa, duma escola de valores a todos os níveis, profissional, moral, religioso e humano. Precisavam de quem lhes defendesse os seus direitos e da sua dignidade”.

Ao longo das cinco décadas de presença em Aveiro, muitas criadas passaram pela casa que fica no centro de Aveiro, tirando cursos de culinária, de corte e costura e confecção, bordados e outros trabalhos. “Aprenderam a ser boas donas de casa”, resume Maria Virgínia Reis.

Actualmente, a acção da Casa de Santa Zita vai noutro sentido. Funciona como lar de estudantes universitários, é residência das associadas mais idosas e acolhe pessoas de passagem temporária.

Ligado à Casa de Santa Zita, existe o Instituto Secular das Cooperadoras da Família, fundação contemporânea da Obra. O instituto, descreve Maria Virgínia, é “constituído por pessoas que se consagram ao serviço da família, nas suas mais variadas vertentes, na orientação das casas de Santa Zita, no atendimento directo e personalizado das várias situações que todos os dias nos batem à porta, no apostolado directo com o MLC (Movimento por um Lar Cristão – casais), no serviço na paróquia, etc.”

A Obra de Santa Zita está actualmente presente nas dioceses de Aveiro, Braga, Porto, Coimbra, Viseu, Lamego, Portalegre e Castelo Branco, Évora, Faro, Lisboa, Guarda e Madeira.

“Falta de vocações de doação à família”

Maria Virgínia Dias Reis, natural de Abrantes, está há oito anos em Aveiro, depois de ter passado por diversas casas da Obra de Santa Zita.

A directora da instituição aveirense afirma que o acolhimento e serviço à família continua a ser o centro de acção da obra que dirige. Para o triénio de 2007-2010, no entanto, a Casa de Santa Zita tem como tema de fundo “Alargar os horizontes da missão: reconverter e requalificar a acção”.

Como principais dificuldades que a instituição aveirense enfrenta no momento presente, Maria Virgínia Reis refere a “falta de vocações de doação à família” e “o estado de desgaste da casa”. “Precisamos de fazer obras de restauro”, acrescenta.

Quem foi Joaquim Alves Brás?

Não posso deixar de evocar este sacerdote simples e bondoso, desprendido e disponível, alegre e feliz, profeta e missionário, apaixonado pela justiça, devorado pela amizade fraterna e aberto a todos sem distinção. Embora o relembre aqui a traços mais do que rapidíssimos, mostrando a sua imagem num mero e imperfeito retrato, faço-o todavia com emoção e com saudade.

Em 20 de Março de 1956, à entrada da casa episcopal, recebi e cumprimentei mons. Alves Brás, que havia solicitado um encontro com o arcebispo-bispo de Aveiro, D. João Evangelista de Lima Vidal, para tratar de assuntos da sua Obra. Foi em tal ocasião, numa ligeira troca de palavras, que lhe ouvi, quando ele elucidou sobre o motivo de andar sempre apressado, não destinando tempo para repousar: “Cabra manca não tem sesta! Tenho tempo de descansar no Céu!…” Aludiu à coxalgia que o atingira aos onze anos de idade, debilitando-lhe para sempre a perna dierita, mas não a vontade de calcorrear as estradas e os caminhos da caridade. Para mim, então padre novo que contava vinte e seis anos, foi uma lição de mestre, para sempre gravada no meu coração mais do que na minha memória: “Tenho tempo de descansar no Céu!…”

Assim, mons. Alves Brás, sem jamais parar, ia vivendo com muita coragem e com muito amor a gratificante aventura de, por todos os meios legítimos, acolher, escutar, compreender, ajudar, aconselhar e orientar outras pessoas num caminho certo para darem sentido à vida, segundo os valores humanos e cristãos. “Temos tantas necessidades neste momento e há tão pouca generosidade; por isso, eu devo aceitar tudo com cara alegre”, confidenciava ele para entusiasmar outros e outras no mesmo ideal. Evangelizador incansável na sociedade que era a sua, tinha por objectivo primordial a dignificação da família, em face da degradação moral vigente, promovendo o bem espiritual e material dos seus membros, de tal forma que bem merece ser chamado “o Apóstolo da Família em Portugal”. Figura carismática do nosso tempo, homem coerente de compromissos assumidos, optimista nos seus empreendimentos e nas suas realizações, corajoso nos momentos adversos com laivos de heroísmo, consciente das suas limitações, mas dotado de uma confiança sem limites no poder e na misericórdia de Deus, mons. Alves Brás prendia, pela invulgar irradiação natural de um magnífico testemunho cristão, revolvia e inquietava aqueles e aquelas que tivessem a oportunidade ou o desejo de o ouvir e com ele contactar. Porque todos sabemos por experiência que só o amor constrói, ele dizia e repetia que “o amor autêntico é permanente”.

Excerto da comunicação de Mons. João Gonçalves Gaspar,

no dia 22 de Abril de 2007

Cronologia

1932 – Surge na diocese da Guarda a Obra de Previdência e Formação das Criadas, mais tarde denominada Obra de Santa Zita (OSZ).

1933 – Surge o Instituto das Cooperadoras da Família, associação de senhoras com consagração religiosa de índole laical (“Instituto secular” em 1961, reconhecido de direito pontifício em 2000).

1952 – Pe António Henriques Vidal funda em Águeda uma delegação da OSZ, que em 1957 contava com 45 associadas efectivas. Até à sua morte, em 2000, este sacerdote seria assistente das Cooperadoras da Família.

1956 – A Obra de Santa Zita chega a Aveiro. No dia 20 de Janeiro, Mons. Alves Brás orienta um encontro com possíveis interessadas, no salão dos Bombeiros Velhos. No dia 21 de Março, o fundador pede autorização ao Bispo D. João Evangelista, autorização para fundar uma delegação em Aveiro e sub-delegações onde o número de empregadas domésticas o justificasse.

1957 – 20 de Janeiro. É inaugurada a sede da OZS, na Rua Eng. Von-Hafe, nº 20. A directora é D. Luzia de Jesus Carvalho.

1958 – Devido à expansão da Obra, compra-se à Família Sacchetti o palacete da Rua dos Combatentes da Grande Guerra, onde ainda tem sede.

1962 – Mons. Alves Brás funda o Movimento por um Lar Cristão.

1966 – 13 de Março. Morre Mons. Joaquim Alves Brás (nascido em Casegas, Covilhã, em1899), num acidente rodoviário. Três semanas antes, participara num curso em São Lourenço do Bairro (Anadia), tendo dito uma das suas frases célebres: “Preparar um homem é formar um indivíduo; mas preparar uma mulher é formar uma família e toda uma geração”.

1974 – No regime democrático, o número de empregadas domésticas desceu abruptamente, levando a que a Obra de Santa Zita, até então direccionada para uma classe com muitos milhares de mulheres orientasse a sua acção para outros sectores.

1990 – Abre a causa de beatificação de Mons. Alves Brás, na diocese de Lisboa.

2007 – A 22 de Abril a Obra comemora com solenidade os 75 de existência e 50 de presença em Aveiro. No dia 12 de Maio, a Câmara Municipal de Aveiro atribui-lhe a Medalha de Mérito Municipal Social.