Casos do Beco das Sardinheiras

Li e Recomendo João de Mancelos sugere “Casos do Beco das Sardinheiras”,

de Mário de Carvalho (Caminho, 2009).

“O Beco das Sardinheiras é um beco como outro qualquer, encafuado na parte velha de Lisboa. Uns dizem que é de Alfama, outros que é já da Mouraria e uns sustentam as suas opiniões com sólidos argumentos topográficos, abonados pela doutrina de olisiponenses egrégios. (…) Creio que o nome lhe vem das sardinheiras que exibem um carmesim vistoso durante todo o ano, plantadas num canteiro que rompe logo à esquina, não longe da drogaria que já fica na rua dos Eléctricos”. Retiradas do Prólogo de “Casos do Beco das Sardinheiras”, estas linhas dão o mote a uma série de histórias humorísticas, centradas num típico beco alfacinha.

Pelas páginas deste livro, desfilam inúmeras personagens divertidas: o Paulinho Marujo, o Zeca da Carris, a gata Tareca, o Zé Metade (assim chamado porque, ao tentar separar o Manecas Canteiro do Mota Cavaleiro, ficou cortado em dois). Esta arraia-miúda, recortada ao jeito vicentino ou de Fernão Lopes, gera no leitor a expectativa e o riso. A par das personagens cómicas, destaco as situações insólitas que agitam o quotidiano do beco: um homem engole a Lua; uma pantera come polícias; o tio Bento toca um trombone mágico — tudo casos de embasbacar.

Este “Casos do Beco das Sardinheiras” é composto por uma dúzia de contos bem conseguidos, graças ao retrato caricatural que fazem da gente que habita nos pátios sombrios, alegres becos e ruazinhas lisboetas. As gargalhadas são garantidas e o prazer não se esgota numa única leitura — como provam as diversas edições destas pequenas grandes narrativas, que o tempo consagrou e que popularizaram o escritor Mário de Carvalho.

João de Mancelos