PRISCILA CIRINO
O I Fórum Católico-Muçulmano, celebrado em Roma, nos dias 4 a 6 de Novembro, marca um passo importante no diálogo inter-religioso, ao realçar os elementos comuns como possibilidade de trabalho conjunto por um mundo mais justo. No encontro, que teve como tema “Amor a Deus, amor ao próximo”, estiveram presentes 24 representantes e cinco conselheiros de cada uma das duas religiões.
A declaração final, com 15 pontos, reconhece a dignidade e sacralidade da vida humana porque “cada pessoa foi criada pelo amor de Deus”. Tanto o Cristianismo como o Islão ensinam que o amor a Deus e a fé genuína levam ao amor ao próximo. “O amor genuíno pelo próximo implica respeito pela pessoa, pelas suas escolhas, em questões de consciência e de religião”.
As religiões minoritárias merecem protecção e têm o direito a ter os seus lugares santos e “não deveriam ser alvo de ridicularização”, sublinha o documento. Num mundo intensamente secularizado e materialista, os participantes do Fórum afirmaram que tanto católicos como muçulmanos devem ser testemunhas “da dimensão transcendental da vida”.
A declaração final aponta ainda que os fiéis de ambas as religiões “devem trabalhar por um sistema financeiro ético, onde os mecanismos reguladores considerem a situação dos pobres e dos desfavorecidos, seja enquanto indivíduos, seja como nações endividadas”.
Na manhã do dia 6, Bento XVI recebeu, em audiência, os participantes do Encontro e encorajou-os a “ultrapassarem todos os mal-entendidos e discórdias”. O Papa afirmou que a realização do Fórum significa um incentivo para “assegurar que as reflexões e desenvolvimentos positivos, que emergem no diálogo entre muçulmanos e cristãos não são limitados a um grupo pequeno de especialistas e estudiosos, mas são um precioso legado ao serviço de todos, que trará frutos a cada dia”. Bento XVI sublinhou estar consciente de que muçulmanos e cristãos têm diferentes abordagens em relação a Deus, mas que podem ser “seguidores do mesmo Deus que nos criou a todos e está preocupado com cada um de nós”.
Em representação da delegação muçulmana, o universitário norte-americano Seyyed Hossein Nasr sublinhou, por sua vez, que muçulmanos e cristãos “crêem uns e outros na liberdade religiosa”. E salientou que os muçulmanos “não aceitarão um proselitismo agressivo que destrua a sua fé em nome da liberdade, tal como os cristãos não o aceitariam se estivessem na situação” dos seguidores do islamismo.
O Papa indicou ainda o dever de mostrar “através do nosso mútuo respeito e solidariedade, que nos consideramos membros da uma família: a família que Deus tem amado e reunido desde a criação do mundo até ao fim da história humana”.
Fórum nasceu da polémica de Ratisbona
A realização deste I Fórum Católico-Muçulmano é fruto de uma história iniciada em Setembro de 2006, quando Bento XVI pronunciou um discurso em Ratisbona (Alemanha), no qual, segundo entenderam os muçulmanos, pareceu associar o Islão à violência. Em resposta a esse pronunciamento, 38 autoridades islâmicas, representantes dos diferentes ramos do Islão (sunitas, xiitas e outros) e de diversos países, reuniram-se para escrever uma “Carta Aberta ao Papa”, divulgada em 13 de Outubro de 2006. Um ano depois, os muçulmanos decidiram expandir a sua mensagem e 138 dos seus representantes escreveram o manifesto “Uma palavra comum entre nós e vós” (http://www.acommonword.com). Destinado aos líderes de todas as igrejas do mundo, o Manifesto refere-se à base comum entre Cristianismo e Islamismo: o duplo mandamento do amor a Deus e ao próximo. O documento teve eco entre os cristãos e provocou o desejo de um espaço de debate e partilha. O resultado foi, então, o Fórum realizado na última semana, organizado pela delegação dos 138 muçulmanos e pelo Conselho Pontifício para o Dialogo Inter-religioso. Como conclusão desta iniciativa, prevê-se um segundo encontro a ser realizado dentro de dois anos num país de maioria muçulmana ainda por determinar.
