Católicos e ortodoxos – A história das razões sem razão

2ª parte No seguimento da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, apresenta-se a segunda parte do ensaio do Padre Doutor Júlio Franclim sobre a separação entre católicos e ortodoxos, uma separação que resultou mais de motivos psicológicos e históricos do que de um conflito dogmático

As interrupções na comunhão

Houve interrupções da comunhão eucarística, por ridículos motivos de prestígio. Uma primeira vez, desde 404 a 415. Um latino que ia ao oriente não recebia a comunhão; um grego que se aventurava no ocidente, também não. Uma segunda interrupção, por razões igualmente insignificantes, durou uma geração inteira, desde 494 até 519. Os contemporâneos, infelizmente, não souberam captar quanto aquelas rupturas eram ligeiras para os pretextos, imprudentes para as suas consequências e inadmissíveis dum ponto de vista espiritual, criando assim uma situação de costume e de consentimento.

Outros conflitos surgiram quando os imperadores, embora nomeando e depondo os patriarcas de Constantinopla conforme queriam, os apoiavam contra os papas que Constantinopla não queria reconhecer senão como patriarcas apenas do ocidente.

De tal modo, o cisma foi em primeiro lugar de ordem eclesiológica: qual era a autoridade do Papa? Sobre que regiões se estendia esta autoridade, excluindo o território do império do oriente? Tratava-se de questões de precedências religiosas e de influências políticas.

Não era ainda um cisma permanente. O restabelecimento da comunhão punha fim a estas rupturas, mas sem cancelar as suas consequências morais.

Uma crescente hostilidade

Os dissabores já existentes e que, pelo menos, iam causando uma certa fricção entre oriente e ocidente foram agravados pela grande crise teológica, moral e política, que surge no império do oriente a propósito dos ícones.

A cristandade grega, que reprovava as esculturas cristãs mas admitia e apoiava as representações pintadas de Jesus, da Virgem Maria, dos santos e dos episódios evangélicos, foi sacudida pela contestação dos iconoclastas, isto é, dos inimigos do uso das imagens. Estes destruíam os ícones e as relíquias e queriam impor a sua proibição na Igreja.

A posição dos monges

e do imperador

A princípio divididos a este respeito, os monges colocaram-se entre os defensores mais ardentes das imagens.

Esta crise religiosa, que durou mais de um século, desde 726 até 843, dividiu de tal forma os espíritos que suscitou as interferências sociais e políticas ainda mais marcadas, quando o imperador Leão III, em 726, condenou as imagens e ordenou que fossem destruídas. Houve desordens; a perseguição contra os defensores das imagens não poupou sequer um patriarca de Constantinopla.

Os imperadores, por motivos nitidamente mais políticos que religiosos, põem-se, umas vezes, ao lado dos iconoclastas, outras vezes contra estes.

Tomada de posição em concílio

Um concílio do império do oriente, em 757, excomungou os fabricantes de ícones. Mas o poder imperial hesitava, conforme as tendências da opinião, preocupado como estava em afirmar a proeminência do imperador.

Um outro concílio, em 787, declarou-se a favor das imagens. Mas a crise não tinha terminado: uma revolução nos anos 813-814 baniu as imagens e o partido iconoclasta perdeu o poder somente em 843, frente à oposição dos monges e do povo, ardentemente fiel aos ícones cuja honra a igreja do oriente restituiu.

Consequências

para o distanciamento

A cristandade latina tinha acolhido as notícias deste conflito com indignação e espanto ao mesmo tempo. O prestígio do oriente cristão sofreu ainda mais com isto. E, embora por fim a igreja do oriente tivesse voltado aos mesmos usos do ocidente e o concílio de 787 fosse plenamente acolhido pelos latinos, estes tiraram da crise iconoclasta a impressão de que a igreja do oriente era muito diferente deles.

Exageros ocidentais

Tudo isto, apesar de tudo, não justificava o direito, por parte dos papas, de consagrar como imperador Carlos Magno, no ano 800, e Otão o Grande em 962: era um desafio lançado ao oriente. Tal como se ensinava que Deus tinha substituído Israel pela Igreja, assim os latinos substituíam o império romano do oriente por um império franco, ou germânico. Era a mesma atitude de rejeição do outro.

Naturalmente, a igreja e o império do oriente sentiram os actos de 800 e 962 como gestos de arrogância, de insolência, como um atentado contra eles.

Tinha-se perdido de tal forma o sentido de unidade cristã que tudo o que acontecia na outra cristandade – como por exemplo a crise iconoclasta – se tornava um pretexto para acentuar as acusações recíprocas.

O agravar da crise:

polémica entre o Papa e o

Patriarca de Constantinopla

Esta hostilidade e cegueira recíprocas emergiram nitidamente no século IX, por ocasião do conflito entre o papa Nicolau I e o patriarca Fócio de Constantinopla. Eram dois homens de qualidade, de igual valor, de igual orgulho, de igual intransigência.

Nicolau I recebeu alguns inimigos de Fócio, que vieram a Roma lamentar-se do seu patriarca. Em vez de os acalmar, Nicolau I escreveu uma carta ao imperador para explicar que o patriarca, estando em erro, se devia submeter ao julgamento do papa (um católico actual vê neste episódio «excessos de linguagem e de pensamento»). O imperador, evidentemente, não liga nada à carta do papa.

E Roma, em 863, declarou a suspensão de Fócio, excomungou-o, e nomeou o rival de Fócio como patriarca de Constantinopla. Esta atitude resultou em nada. Pelo contrário, só enfureceu ainda mais os gregos, tanto mais que naquele período havia as rivalidades que opunham os gregos aos latinos, a propósito da missão entre os eslavos.

A excomunhão pronunciada por Nicolau I exprimia uma situação em que o ocidente latino e o oriente bizantino eram estranhos um ao outro. Mas não se tratava dum problema de diferença teológica. Foi a questão do Filioque a transformar esta situação em divisão permanente.

A controvérsia do «Filioque»

Breve história

O Símbolo de Niceia-Constantinopla precisa que o Espírito Santo «procede do Pai». Ora, no século VI, alguns católicos, na Espanha de então, que celebravam missa em latim, acrescentaram a esta expressão o termo Filioque, dizendo de tal modo que o Espírito Santo «procede do Pai e do Filho». O acrescento deste termo difundiu-se na Gália no século VII. Roma e os papas nada tinham a ver com isto. Mas, assim como o imperador do oriente proibia ou autorizava as imagens, do mesmo modo Carlos Magno tornou oficial o Filioque, sem consultar Roma, que hesitava sobre o fundamento de tal iniciativa. Nicolau I, por seu lado, não ratificou o Filioque.

Em Roma, a ratificação foi feita cinco séculos depois da sua aparição, isto é, no século XI.

A posição da Igreja do oriente

Constantinopla e os ortodoxos opunham-se ao Filioque por três motivos: o primeiro motivo, o mais difundido, o mais instintivo, é que tudo o que vinha do ocidente era sem valor aos olhos dos gregos: o Filioque não era mais que uma invenção dos bárbaros do ocidente.

O segundo motivo era absolutamente justificado. Um texto como o Símbolo do ano 381 e adoptado por um concílio só podia ser modificado por um outro concílio. Acrescentar o Filioque significava modificar o Símbolo. A argumentação dos gregos era irrefutável: a iniciativa ocidental era inadmissível sob o ponto de vista jurídico e conciliar.

Por fim, um terceiro motivo. Os ortodoxos avançaram com uma argumento de tipo teológico. Eles consideravam que toda a teologia da Trindade vinha a ser modificada pelo Filioque. Fócio escreveu um tratado sobre este ponto, desde então constantemente retomado e ampliado pelos ortodoxos, para demonstrar que os ocidentais tinham alterado a doutrina da Trindade, para demonstrar a ortodoxia da igreja do oriente e denunciar a heresia da igreja do ocidente.

Algumas observações a este respeito:

1) O Filioque não é um motivo suficiente – admitindo que haja motivos – para justificar a divisão. A prova mais eloquente é precisamente o facto de que, depois da morte de Nicolau I e de Fócio, e apesar de a controvérsia teológica continuar, a comunhão entre Roma e Constantinopla foi restabelecida e durou cento e setenta e quatro anos, desde 880 a 1054. Durante seis ou sete gerações os ortodoxos não cessaram de dar a comunhão aos latinos que iam ao oriente, embora o uso de dizer o Filioque nas celebrações ocidentais fosse perfeitamente conhecido dos ortodoxos.

2) Nesta discussão, o ocidente pode defender a sua opção teológica, na qual a Reforma e a Igreja católica estão em comunhão; mas isto não tira que tenha ferido o oriente, ignorando-o, agindo como se a ortodoxia não existisse e como se os gregos não tivessem sido, em larga medida, os padres da igreja do ocidente. É uma triste evidência. Por seu lado, o oriente ortodoxo dramatizou a situação.

3) O conflito não é irremediável. Em 7 de Junho de 1981, por ocasião do XVI centenário do concílio de 381, o Papa João Paulo II celebrou em Roma, recitando o Símbolo sem o Filioque, querendo assim exprimir que não se tratava dum artigo de fé central e que tinha em conta as relutâncias dos ortodoxos. Em 6 de Dezembro de 1987, por ocasião da visita a Roma do Patriarca de Constantinopla, Dimitrios, na celebração em S. Pedro o Patriarca e o Papa recitaram em conjunto, em grego, o Símbolo sem o Filioque.

A ruptura

Mesmo se durante cento e quarenta e quatro anos foi restabelecida a comunhão entre Roma e Constantinopla, o distanciamento recíproco ia-se aprofundando cada vez mais. A recordação da crise do séc. IX permanecia. Cristalizava-se o recíproco azedume sobre a questão do Filioque, isto é, sobre o Espírito Santo, que se tornava assim um sujeito de discórdia entre os cristãos calcedónios, Ele que é amor.

A excomunhão recíproca

Passando por cima de diversos episódios negativos, eis-nos no meio do séc. XI. O chefe da Igreja ortodoxa da Bulgária escreveu ao Papa Leão IX uma carta sobre a Eucaristia dos latinos que os católicos consideraram injuriosa. Indignado, Leão IX enviou a Constantinopla um legado, o cardeal Humberto, para protestar.

É difícil saber qual dos dois, se o patriarca Miguel Cerulário se o cardeal Humberto, seria o mais arrogante. Em 16 de Julho de 1054, Humberto excomungou Cerulário na igreja deste, Santa Sofia. Procedimento excessivo, pois o cardeal Humberto tinha recebido a notícia da morte de Leão IX e, conforme as normas do direito, Humberto era o legado do Papa e não da Santa Sé. Em 16 de Julho, Humberto já não era legado do Papa.

Por seu lado, Cerulário excomungou Humberto e os latinos. Era a ruptura. E a questão do Filioque voltou, então, para o centro das controvérsias.

As consequências…

Constantinopla ensinou que os católicos eram rejeitados. Roma ensinou que os ortodoxos eram rejeitados.

Este desastre do amor cristão foi uma catástrofe para a vida eclesial, mesmo se a maioria, para não dizer a quase totalidade dos cristãos do séc. XI, nunca tivessem ocasião de encontrar alguém da outra cristandade e, por isso, não vissem naquelas circunstâncias mais do que um conflito noutro lugar, um conflito que envolvia apenas as hierarquias. Mas qualquer divisão que se alimenta de si mesma traz sempre frutos amargos. Descreviam-se os outros como «hereges». Os latinos faziam guerra aos gregos.

A Quarta Cruzada

A Quarta Cruzada, em 1204, aparece como uma nódoa negra da história cristã. Não é este o lugar para julgar a oportunidade ou o fundamento evangélico das cruzadas. A gente daquele tempo fez as Cruzadas contra os «infiéis». E tal era o projecto da Quarta Cruzada.

Partiam por mar, porque a longa viagem a pé dos cruzados fazia morrer metade. A república de Veneza ofereceu os seus navios aos cruzados. Esta república estava em concorrência comercial permanente com o império do oriente. Mas, em vez de desembarcar na Terra Santa, a cruzada dirigiu-se a Constantinopla, tomou a cidade de assalto, fez nela terríficas devastações, destituiu o imperador e o patriarca, impôs um imperador latino e, nas igrejas, a liturgia latina: proclamou-se um império latino.

Aquele império latino à traição durou menos de sessenta anos; mas o crime da quarta cruzada marcará a ortodoxia de modo duradouro, que ligará, sempre que pensa nos latinos, a heresia à traição, e nutrirá uma suspeita permanente em relação aos cristãos do ocidente.

Outras querelas

Além disso, a Igreja de Roma anexou ao catolicismo, a partir do século XVI, alguns grupos de ortodoxos que mantinham os seus ritos mas reconheciam a autoridade do Papa. Ora, estas anexações nem sempre foram feitas com os procedimentos de melhor qualidade, a ponto de enevoar ainda hoje a atmosfera entre os católicos e os ortodoxos. Não se trata tanto dum conflito dogmático o que existe entre eles. Bem mais profundo é o contencioso psicológico e histórico, que foi e permanece intenso, mesmo se nestes últimos anos se foi atenuando.

J. Franclim Pacheco