Há uma relação indivisível entre o amor a Deus e o amor ao próximo: “um exige tão intimamente o outro que a afirmação do amor a Deus se torna uma mentira, se o ser humano se fechar ao próximo ou, inclusive, o odiar”.
Calejada por muitos e sucessivos sustos, a Humanidade já quase não anota as nuvens pesadas que surgem diariamente no horizonte da paz. Nestes dias, três factos tornaram mais plúmbeo o céu do Mundo: novas ameaças de Bin Laden de sangrentos episódios de terrorismo; a recusa do Hamas em depor as armas, agora que conquistou nas urnas o poder político; a ameaça do Presidente da França de retaliar com armas não convencionais em caso de ataque terrorista a interesses franceses.
E, precisamente coincidente com estes fumos negros que os homens exalam, Bento XVI abre o seu coração de Pastor, apresenta o seu programa de acção, apontando-nos firmemente o caminho da consolidação das relações fraternas entre as pessoas, entre os grupos, entre os povos: “Deus é amor”.
Dizia-nos no início deste ano que só na Verdade de Deus se encontra a Paz. Isto é, na medida em que nos abrirmos à Verdade – cedendo das nossas “verdades” – estamos a trilhar um caminho de aproximação: deixamos progressivamente a praga do relativismo, para nos encontrarmos na plenitude da Verdade, que é Deus. Agora, vem ensinar-nos que todo o impulso relacional tende à realização plena da pessoa humana na entrega completa e gratuita – amor.
E Deus é o Amor, a fonte de todo o dinamismo que nos faz caminhar do impulso até à doação generosa. E Jesus Cristo é a expressão visível dessa plenitude de entrega, no seio da Trindade e no magnânimo debruçar-se do mesmo Deus sobre a Humanidade. Vê-lo é ver o Pai. Acolhê-lo é deixar-se interpelar, para tornar visível, nas nossas atitudes e palavras para com os outros, a nossa reciprocidade com Ele.
Deus é o caminho para encontrar o próximo, para reconhecer a pessoa humana, a dignidade dos grupos e dos povos. Mas “o amor ao próximo é um caminho para encontrar também o amor a Deus”; e “o fechar os olhos diante do próximo nos torna cegos também diante de Deus”.
A Comunidade Internacional, a pretexto de uma sadia neutralidade religiosa dos Estados, afasta-se do horizonte de Deus para descobrir a pessoa humana. Mais grave, porém, será a indiferença diante da miséria extrema de tanta gente, de povos inteiros, o egoísmo feroz de indivíduos e nações… que, em consequência, se tornam cegos diante de Deus.
