“Ceia com calor” assinalou terceiro aniversário

Jantar de voluntários e sem-abrigo assinalou os três anos da iniciativa que vai ao encontro de quem vive na rua.

A “Ceia com calor”, serviço de apoio alimentar aos sem-abrigo de Aveiro, implementado pelas Florinhas Vouga, assinalou o seu 3.º aniversário com um jantar, servido no Salão D. João Evangelista de Lima Vidal, aberto aos sem-abrigo, a que se juntaram outros convidados, nomeadamente o Bispo da Diocese de Aveiro, os presidentes da Câmara Municipal de Aveiro e das Juntas de Freguesia da Glória e da Vera Cruz, a responsável em Aveiro pelo Instituto da Droga e da Toxicodependência, Celina França, e jornalistas.

Sandra Marques, responsável pelos serviços de voluntariado da Florinhas d0 Vouga, realçou: “Todos os dias à noite, desde há três anos, entre as 21 e as 23 horas, paramos em dois locais da cidade: a Estação dos Caminhos de Ferro e o Rossio, para entregarmos o reforço alimentar às pessoas que estão numa situação de sem abrigo”. O serviço conta com a colaboração de 85 voluntários, divididos em grupos de quatro elementos. Rotativamente, cada grupo faz a distribuição dos alimentos numa noite, bem como “algum trabalho de acompanhamento junto dos sem-abrigo”.

De acordo com Sandra Marques, em 2009 eram cerca de 60 as pessoas sem-abrigo, de ambos os sexos e de várias idades, apoiadas pela “Ceia com calor”, a maioria das quais “vive em casas abandonadas, que ocupam”.

Durante o jantar, estiveram expostas cartas escritas por oito reclusos do Estabelecimento Prisional de Aveiro. As cartas mostram o resultado da parceria entre aquelas duas entidades, a qual permitiu a esses oito reclusos tirarem um curso de mesa e bar. No mês de Julho, esses reclusos “confeccionaram algumas refeições que foram entregues na ‘Ceia com calor’, à noite. Agora, eles quiseram passar uma mensagem às pessoas que estão desempregadas, escrevendo estas cartas”, explicou Sandra Marques.

A “Ceia com calor” é um complemento às refeições quentes que as Florinhas do Vouga servem diariamente no seu Refeitório Social, situado em Santiago. Para além disso, como explicou o P.e João Gonçalves, presidente das Florinhas do Vouga, “outra ideia que nos moveu foi irmos à rua, onde estas pessoas estão, para criarmos a aproximação com elas, dando-lhes também calor humano, para que elas possam fazer algum caminho de reinserção social, até porque muitos dos beneficiários da “Ceia com calor” não frequentam o Refeitório Social”. Por isso, “quando vamos à rua, dizemos-lhes que isto é só um reforço alimentar, por que queremos que vão ao Refeitório Social comerem uma refeição quente”.

Nos sem-abrigo falham

a família e a sociedade

“As causas que levam as pessoas a viverem desta maneira são imensas, como nos dizem os manuais”, sublinha o P.e João Gonçalves, referindo que, ”são pessoas que tiveram alguns problemas familiares, problemas com algum tipo de dependência com drogas ou algumas ligações ao crime. São pessoas que ficaram fora da comunidade e não foram capazes de voltar a integrar-se ou que ninguém as acolheu. Quando vamos à procura das razões que levaram uma pessoa a ser sem-abrigo, não podemos encontrar essas razões só na pessoa sem-abrigo, mas temos também de as encontrar em outras pessoas: a família, em primeiro lugar, e a sociedade. É preciso saber até que ponto nós integramos as pessoas”.

O P.e João Gonçalves reconheceu que, para muitos destes sem-abrigo, os voluntários da “Ceia com calor” são a sua família afectiva, juntamente com outros sem-abrigo, facto que também está nos objectivos deste projecto. “Nós queremos aproximá-los entre eles e aproximá-los de nós, para que “Ceia com calor” não seja só o calor do café com leite ou do chá, mas também do calor humano”, acrescenta.

Cardoso Ferreira

Nova pedagogia no social

Para o Bispo de Aveiro, D. António Francisco, esta iniciativa das Florinhas do Vouga “não é só repartir os pães, mas fazer esse milagre diário da multiplicação dos pães, que se traduz primeiro na multiplicação dos voluntários, depois, na multiplicação da generosidade de tantas pessoas que colaboram nesta iniciativa. Esta multiplicação dos pães “é um verdadeiro milagre de atenção solidária e de solicitude na caridade das pessoas que olham e que estão atentas para os que mais precisam, neste caso, os sem-abrigo”.

D. António Francisco reconhece que a “Ceia com calor” ao ir à rua junto dos sem-abrigo “diz-nos que há uma forma nova, uma pedagogia social nova, uma cultura diferente de trabalhar, que o Evangelho incentiva, que é não apenas ficarmos nas nossas instituições à espera dos que batem à porta, mas de irmos ao encontro de tantas situações e de tantas pessoas que vivem em exclusão, algumas até de vergonha por manifestarem a necessidade de terem de ser ajudadas, e outras pela manifesta insensibilidade que já criaram à sua própria situação. Há muita gente sem-abrigo que até já nem se apercebe da necessidade ou da possibilidade que têm, ou do direito que têm, a terem casa e a terem alguém que os ajude e que olhe por eles com este amor fraterno porque eles são nossos irmãos”.

Élio Maia reconhece existência

de sem-abrigo em Aveiro

Presente no jantar, o presidente da Câmara Municipal de Aveiro, Élio Maia, afirmou: “Tenho pena de estar aqui, pelo facto de em Aveiro haver situações destas. Gostava muito que na nossa sociedade estes casos não existissem, mas existem. E como existem, manifestou o seu reconhecimento às Florinhas do Vouga que durante estes 70 anos têm distribuído tanto carinho e amor a Aveiro e que, há três anos, atiçou ainda mais esse amor, com esta iniciativa”.