Celebração para ancorar a esperança

Cerca de mil finalistas foram abençoados pelo Bispo de Aveiro. Para alguns, é apenas mais uma festa da semana académica. Para outros, representa a passagem para a vida profissional. E a bênção de Deus conta.

“O tempo que se adivinha no voo futuro tem aqui a sua âncora. Não para vos deixar continuamente amarrados ao cais ou presos às seguranças encontradas, mas para daqui partirdes com o encontro e o entusiasmo de quem se sente preparado para grandes e exigentes viagens”, afirmou D. António Francisco na celebração da Bênção dos Finalistas, que no Domingo, 4 de Maio, congregou na alameda da Universidade de Aveiro cerca de um milhar de finalistas da UA e das outras instituições de ensino superior situadas da região e uns bons milhares de pais, familiares e amigo.

O Bispo de Aveiro abençoou os finalistas (em Aveiro abençoam-se os estudantes e não as pastas ou as fitas) e explicou o significado do acto: “A bênção é um estímulo de fé, um apelo enérgico para uma ética de vida coerente, uma fonte de luz para um agir profissional competente”. “É na bênção de Deus que devemos ancorar a nossa esperança. (…) Estaremos preparados para as surpresas do caminho, acolhendo a novidade do futuro, fortalecidos para as dificuldades, decididos a construir uma sociedade centrada na pessoa humana”, afirmou.

Porque se celebrava o Domingo da Ascensão, em que a Igreja propõe que se reflicta sobre os meios de comunicação social, D. António Francisco disse aos finalistas, fazendo eco da mensagem de Bento XVI, que apelava para o dever da comunicação social estar ao serviço da verdade: “Procurar a verdade deve ser também a vossa vocação. Aí se cumpre a alegria do trabalho para o qual o vosso curso vos preparou (…). Convido-vos a ser luz que ilumina, fermento que transforma, verdade que liberta”.

Os finalistas responderam com a oferta de símbolos representativos do curso que estão prestes a concluir e com a oração de compromisso. O rito da entrega dos símbolos, na altura do ofertório, prolongou-se por mais de uma hora (cada um dos mais de quarenta cursos, leu um texto explicativo de um ou dois minutos) e foi acompanhado de alguns gritos académicos que, para algumas pessoas, destoaram na celebração. Giselle Carvalho, finalista de Engenharia Civil é dessa opinião. “Estamos em ambiente académico, mas estamos numa celebração. Hoje, a alameda é como se fosse uma igreja. Devia haver limites”, afirma. A finalista de Esgueira adianta alguns pormenores que revelam que alguns finalistas vivem a celebração por tradição ou por efeito de grupo e não por convicção: “A maior parte das pessoas nem reage nas respostas da Missa. Não sabem responder. E até vi uma finalista a fumar”. Vânia Malta, finalista do mesmo curso, de Ponte de Vagos, concorda: “Estão a extrapolar. Pensam que estão na queima e não pode ser assim. Mas não me admiro, porque ouvi alguém dizer que já não ia à Missa há mais de um ano”. No entanto, a finalista acrescenta: “Se mesmo assim querem ser abençoados, acho que têm direito”.

Já a caminhar para o final da celebração, os finalistas proclamaram um compromisso colectivo, em que afirmavam, entre outros aspectos, que querem “viver no esforço e no empenho”, partilhar os conhecimentos em favor “da dignidade da pessoa humana e na integridade social e ambiental”, “sempre em espírito de fraternidade”, com “responsabilidade” e participando “na construção da paz”.

Como os finalistas, também os pais participaram com graus diferentes de interesse na celebração. Vindos da Vagueira, Agostinho Gomes e Rosa Adelaide, testemunharam ao Correio do Vouga “grande emoção” por verem a filha chegar ao fim do curso de Administração Pública. “Temos mais filhos, mas apenas esta tirou um curso superior”. “Temos muito gosto. Custou muito [em termos económicos]”. “É uma grande vitória” – dizem, um completando as frases do outro.

Maria Pedro, vinda da Covilhã, relativiza o feito da sua filha, finalista de Biologia. “Isto é só festa e cele-bração, mas o final do curso ainda não chegou. E depois vem o mestrado. E a seguir não se sabe”. “Só se aparecer um emprego caído do céu é que a minha filha não prosseguirá para o mestrado. As pessoas não podem parar de estudar”, refere. Parecendo assumir uma certa indiferença perante o desenrolar da celebração, o Correio do Vouga perguntou-lhe: “Tem algum significado, para si, como mãe, esta bênção?” “Não, nenhum”, foi a resposta. “Então, porque veio à celebração?” A resposta: “Porque não há outra”.