Sebastião Soares de Resende, natural de Santa Maria da Feira, distingiu-se na defesa dos moçambicanos e foi voz incómoda para o regime colonialista
No dia 26 de Janeiro de 1967, o “Diário de Moçambique” escreve sobre a morte do seu fundador: “Homem voltado para a realidade do seu tempo, o Senhor Bispo da Beira foi, sob muitos aspectos, um precursor do avanço social verificado na África Portuguesa(…) algumas das suas pastorais e muitas peças da sua pregação constituíram gritos de autêntico profeta”.
D. Sebastião Soares de Resende morreu no dia 25 de Janeiro de 1967. Católicos, hindus, muçulmanos e ortodoxos, depois de terem rezado pela sua saúde, choraram a sua morte. Vítima de cancro, o primeiro bispo da Beira pôde preparar a sua morte, tendo escrito que desejava que em algum ponto do seu cortejo fúnebre o caixão fosse levado por africanos, aqueles a quem se dedicou com afinco. Foi sepultado no cemitério de Santa Isabel, na Beira. Na campa rasa, com uma pequena pedra por cima, pode ler-se simplesmente “Sebastião, primeiro bispo da Beira”.
Sebastião Soares de Resende nasceu no dia 14 de Junho de 1906, em Milheirós de Poiares, Santa Maria da Feira. No último sábado, paróquia, Junta de Freguesia a Câmara Municipal comemoraram o centenário do ilustre bispo com estudos, testemunhos, uma medalha, uma estátua e a concelebração da Eucaristia.
Dignidade inviolável dos africanos
D. Sebastião Soares de Resende foi a voz mais crítica do colonialismo português. Em 1944, estando havia um ano em Moçambique, escreveu no seu Diário Íntimo que “impera a escravatura na Beira! Não há maneira de se convencerem de que os pretos são pessoas humanas”. Em 1951, defende publicamente a criação de uma universidade na colónia portuguesa. Como isso não estava ao seu alcance, lança o ensino secundário na Beira, com o Instituto Liceal D. Gonçalo da Silveira e os colégios de Vila Pery e de Tete. E escreve: “É retrógrada e absurda a tese de que a instrução só serve para fazer mal ao indígena” acrescentando que só pode ter tal “concepção quem pretender fazer do indígena simples animal de carga ou máquina de força motriz”. Na Pastoral de 1959, chega mesmo a pôr a questão da independência de Moçambique – o que lhe custou a apreensão do documento pela PIDE. O mesmo aconteceria várias vezes ao jornal “Diário de Moçambique”, que fundara para denunciar injustiças, na linha do que escreve uns anos antes: “Hei-de empregar todos os meios (…) ainda que seja a imprensa”. O Evangelho e a dignidade inviolável de todos os seres humanos estavam no centro da acção deste bispo.
No número de Fevereiro de 2006 da revista “Villa da Feira”, dedicado a D. Sebastião Resende, Adriano Moreira, ministro do Ultramar responsável pelo fim do opressivo Estatuto do Indigenato, escreve: “Entre os missionários dessa época destacou-se D. Sebastião de Resende, Bispo da Beira, cuja intervenção, frequentemente apaixonada, em favor da autenticidade das políticas coloniais, o levou a frequentes confrontos, incluindo discussões judiciais, com o poder político. Mas nunca em contradição ou desvio com a missão de Bispo sucessor dos apóstolos, sem beliscar a sua condição de português. Pessoalmente prestei atenção demorada à sua pregação, e algumas medidas da minha responsabilidade governativa tiveram apoio nas intervenções corajosas e lúcidas que lhe ficamos a dever”.
J.P.F.
Sebastião Soares de Resende
1906 – 14 de Junho. Nasce Sebastião Soares de Resende, em Milheirós de Poiares, Santa Maria da Feira
1928 – 21 de Outubro. Com apenas 22 anos, Sebastião de Resende é ordenado padre. Neste mesmo ano é enviado para Roma, onde se doutorou em Filosofia.
1934-43 – É vice-reitor no Seminário do Porto.
1943 – 21 de Abril. É nomeado primeiro bispo da Beira, Moçambique. Toma posse no dia 8 de Dezembro. Nesse dia, todos os anos, passa a dirigir uma Carta Pastoral ao seu rebanho.
1950 – Surge o “Diário de Moçambique”, graças aos esforços do bispo da Beira, que fundou ainda o semanário “A Voz Africana” e a revista “Economia”.
1962-65 – II Concílio do Vaticano. É o bispo mais interveniente entre os 42 prelados portugueses. Numa das intervenções, pede que o Concílio declare o dogma de que todos os homens são irmãos.
1967 – 25 de Janeiro. D. Sebastião Soares de Resende morre em Moçambique, vítima de um cancro.
