Questões Sociais A sociedade portuguesa, como outras, encontra-se muito marcada pelos dois extremismos demolidores, abordados no artigo anterior: o libertinismo económico; e o contestatário. De acordo com isso, o pensamento dominante parece ignorar as posições não extremistas; classifica-as, em geral, como centristas, e considera o centrismo como ambíguo e oportunista. Parece ignorar também uma realidade muito mais ampla e profunda, que poderemos designar por «terra de ninguém», entre as «trincheiras» dos extremismos.
Ela simboliza a vida pacífica. É por ela que passam os mensageiros dos beligerantes. Nela se poderá dialogar na procura da paz. E, terminando todas as guerras, qualquer que seja a sua natureza, a «terra de ninguém» será toda a terra, para toda a gente. Uma realidade talvez utópica, mas indissociável das nossas aspirações mais profundas.
Não se exige muito para que ela se alargue e aprofunde. Bastam, porventura, umas poucas linhas de rumo: evitar o recurso à violência; respeitar a dignidade humana; procurar o bem comum, baseado na liberdade e na justiça; incluir, no bem comum, o de cada pessoa; erradicar a pobreza… Na «terra de ninguém», cabem todas as correntes de pensamento, de ideologia, de acção… e até de contestação. A própria acção revolucionária ocupa aí o seu lugar, com toda a naturalidade; para tanto basta que tenha em conta aquelas linhas de rumo.
As democracias políticas são, em larga medida, espaços privilegiados de encontro e de relações pacíficas, baseadas na prossecução do bem comum, assente na dignidade humana de todas as pessoas. Embora minadas por extremismos poderosos, internos e externos, vêm preservando a sua identidade e a vinculação aos seus objectivos. Para subsistirem, torna-se indispensável o contributo de todos/as os/as cidadãos/ãs, evitando extremismos demolidores e, sobretudo, construindo em comum a paz e a solução dos graves problemas com que nos debatemos.
O Natal encerra, no seu mistério e simbolismo, um apelo muito forte – infinito – a que todos saibamos encontrar-nos, conviver, cooperar e desbravar caminhos de futuro, sem violências nem exclusões. Correspondamos a esse apelo.
