“Chegam-nos situações de emergência social e o apoio fica aquém do necessário”

Joana Condesso, o diácono Diamantino Neves e Joana Capitão constituem a equipa da diocese de Aveiro para o Fundo Social Solidário (FSS). Este fundo foi criado pela Cáritas Portuguesa para atender aos casos mais prementes da atual crise económica. Em Aveiro, o FSS deu há poucos dias à centésima ajuda – pretexto para conhecermos melhor esta ajuda especial da Cáritas através deste entrevista coletiva.

Correio do Vouga – A Joana Condesso, o diácono Diamantino e Fernanda Capitão constituem a equipa de animação do Fundo Social Solidário (FSS) da Diocese de Aveiro. Como surgiu esta equipa?

Equipa do FSS – As equipas diocesanas de animação foram constituídas pelos bispos de cada diocese. Os bispos solicitaram às Caritas Diocesanas, aos Conselhos Centrais da Conferências Vicentinas e a outros órgãos da Igreja, relacionados com a pastoral sócio-caritativa, que se fizessem representar nesta equipa de trabalho.

Quantas pessoas ou casos atendeu o FSS na Diocese de Aveiro?

Na segunda quinzena de junho enviamos para apoio do FSS o caso n.º 100, o que significa que até essa data foram considerados 100 agregados familiares compostos por 305 pessoas.

No total, qual o montante dado a essas pessoas? Desde quando?

O FSS foi criado em julho de 2010, mas só começou a funcionar verdadeiramente em dezembro desse ano. Desde essa altura recebemos do Fundo Nacional 84 865,70 euros. De salientar, no entanto, que o apoio dado às famílias é superior, uma vez que uma das normas do regulamento do Fundo determina que exista comparticipação local e diocesana, que acresce ao referido montante.

Na Diocese de Aveiro não tem sido possível atribuir verbas da diocese mas tem existido alguma comparticipação local das paróquias, através das Conferências Vicentinas e dos Grupos Cáritas, assim como da Cáritas Diocesana.

Qual a situação mais típica das pessoas ajudadas? Estão desempregadas?

De facto, quase todas as famílias apoiadas vivem a situação angustiante de desemprego de pelo menos um dos membros do agregado de familiar. No entanto, há também situações em que os salários e ou pensões são demasiado baixos para fazer face às despesas o que conduz muitas famílias a novas formas de pobreza.

Os pedidos de apoio chegam-nos de vários pontos da diocese, podemos dizer que até ao momento já beneficiaram de apoio do FSS casos enviados por 17 paróquias.

Que destino dão as pessoas ao dinheiro?

A verba atribuída a cada família é entregue através de um cheque à instituição local que fez o pedido, e depois esta adopta os procedimentos que considerar mais eficientes para que o dinheiro chegue aos destinatários. Existe uma “rede de confiança” muitíssimo importante entre a pessoa a apoiar, o grupo de apoio social de proximidade, a equipa diocesana e a equipa nacional.

O montante atribuído tem no entanto um destino certo, já que depende do pedido inicial e da redistribuição definida pela equipa diocesana. As verbas que têm sido concedidas direcionaram-se maioritariamente ao apoio à habitação, quer para ajuda no pagamento de rendas, prestações e muitas situações de endividamento, quer para ajuda no pagamento de despesas fixas: água, luz e gás. Pelos pedidos que nos têm chegado às mãos, temos a perceção que neste momento muitas famílias já não têm água e ou luz em casa. Têm sido também fortemente apoiadas situações de doenças e pontualmente foram também atribuídas verbas para pagamento de propinas e outros apoios à formação profissional e à criação ou manutenção de postos de trabalho.

Qual o montante típico dado?

Não existe um montante típico do pedido, depende muito da situação de emergência social em que a família se encontra e da resposta que a instituição local procura dar.

De onde vem o dinheiro do FSS?

O Fundo Social Solidário tem sido alimentado por donativos de privados e de empresas, beneficiando também de campanhas promovidas por instituições ligadas à Igreja ou não (como uma campanha da Rádio Renascença no Natal de 2010). Existe assim uma conta bancária onde qualquer pessoa poderá depositar os seus donativos: Banco Millenium BCP com o n.º 109 004 0150 e o NIB 0033 0000 0109 0040 15012.

Como é feita a seleção dos casos mais necessitados?

A primeira seleção é feita pelos grupos de apoio de proximidade, Conferências Vicentinas, Grupos Cáritas, Centros Paroquiais, párocos, que, de acordo com as condições definidas pelo regulamento do FSS, detetam as situações de maior gravidade, enviando os pedidos para a equipa de animação diocesana. Existe então um segundo momento de seleção em que se analisam as situações apresentadas e se estabelecem prioridades de modo a que sejam enviados para a equipa nacional os casos de maior emergência social. Temos especialmente em consideração o número de crianças e idosos do agregado familiar, famílias monoparentais e ainda novas situações de pobreza.

Quem pode apresentar casos e onde é que as pessoas se podem dirigir?

A nossa equipa recebe os casos diretamente das Conferências Vicentinas ou de Grupos Paroquiais da Cáritas, por isso é a estes grupos sociocaritativos que qualquer pessoa ou instituição se pode dirigir.

A ajuda é pontual ou continuada?

A ajuda é pontual mas é regra do Fundo que só possam ser contempladas situações que possam ser acompanhadas pelos grupos de apoio de proximidade.

A ideia inicial do FSS era resolver os problemas apresentados para apoio, mas, com o agravamento da situação económica do país, as famílias vem piorar a sua situação cada vez mais e por isso o apoio que damos, na maioria dos casos, permite apenas um alívio temporário de 3 a 4 meses. Acreditamos no entanto que este apoio pode ser fundamental para que as pessoas não entrem em desespero e possam encontrar forças para procurar novas soluções.

Tanto quanto a Cáritas nacional informa, da Diocese de Aveiro não chegou nenhum montante ao fundo. Confirma-se? Por que se verifica tal situação?

A Diocese de Aveiro tem garantido a contribuição local, através das paróquias, mas não enquanto diocese propriamente dita, uma vez que o Fundo de Emergência Diocesano não tem verbas que possam garantir essa comparticipação. Esta é verdadeiramente uma grande preocupação nossa, já que em determinadas situações temos sido penalizados por este facto.

O FSS tem como função auxiliar pessoas neste período de crise mas também provocar a solidariedade de quem tem mais. Esta segunda parte está a ser alcançada?

A nível nacional, sim. As previsões excederam as expectativas…inicialmente existia o receio de que o FSS não fosse sustentado por mais de um ano e a verdade é que tem vindo a ser reforçado por donativos de empresas e particulares. A nível diocesano e paroquial parece-nos que há muito ainda a fazer, nomeadamente no reavivar do Fundo de Emergência Diocesano. Será de nos questionarmos como cristãos, se estamos, verdadeiramente atentos à dor dos “irmãos”…que vai muito para além da frieza dos números que por si só já são assustadores? Nestes momentos tão difíceis, estamos de coração rasgado a viver a compaixão? Estamos a ir à procura de quem de nós precisa …ou temos até receio do que nos possam pedir? Estamos a dar tudo como a pobre viúva… ou um pouco do que nos sobra? Como estamos a gastar o dinheiro que ainda podemos partilhar? Quais são as prioridades das paróquias? Estamos mesmo a privilegiar os mais pobres? Os projetos das famílias, das paróquias e da nossa Diocese revelam este acolhimento e Amor desmedido por aqueles que estão a sofrer? Como foi referido pelo nosso Bispo, “Os pobres não podem esperar”!

De uma forma global como avaliam o trabalho que têm vindo a desenvolver?

Consideramos que a constituição desta equipa trouxe inúmeros benefícios que excederam amplamente os objetivos iniciais. Para além do apoio económico que foi possível conceder através do trabalho que realizamos quinzenalmente, estabeleceu-se uma óptima parceria entre a Cáritas Diocesana e as Conferências Vicentinas que deu já frutos noutros campos, nomeadamente no reavivar do Secretariado Diocesano da Pastoral Social. Este estreitar de relações, entre os vários intervenientes da pastoral sócio caritativa é já uma realidade a nível nacional e diocesano e tem que ser a grande aposta a nível paroquial.

Como vêm o futuro desta iniciativa?

É com um misto de apreensão e esperança que olhamos para o futuro. As situações que nos chegam são situações limite, de emergência social e sabemos que o apoio concedido fica muitas vezes aquém do necessário. Por outro lado preocupa-nos o agravamento da situação económica das famílias e as consequências sociais que daí advêm. É fundamental a criatividade e ousadia de apresentar caminhos possíveis que ajudem os mais desfavorecidos, e que envolvam os cristãos num compromisso social pela justiça e solidariedade. Lembramos a expressão utilizada pelo Cardeal Ravasi no dia 13 de maio em Fátima: “Não devemos ter medo de sujar as mãos, ajudando os miseráveis da terra: que servirá ter as mãos limpas se as temos no bolso?”