Pode haver teólogos ateus?
Sim, claro que os há, como também já houve papas ímpios e moralmente condenáveis. Mas em rigor, a teologia cristã implica a fé de quem a faz e ensina ou estuda. Segundo a definição clássica, teologia é a busca de uma compreensão racional, enquanto for possível, do mistério da Revelação cristã. Isto pressupõe, à partida, que se aceita a Revelação, ou seja, que Deus se revela, se comunica. Ora, aceitar a Revelação é ter fé.
A teologia é o esforço humano, racional, à volta desta Revelação – facto primordial e fundamental do cristianismo. Se se o nega a Revelação, nega-se a possibilidade da teologia cristã. Em rigor, não é lógico admitir a Revelação (a comunicação de Deus) e, ao mesmo tempo, não ter fé.
Por outro lado, seguindo uma célebre expressão latina, quando a “fides quaerens intellectum” (“a fé busca a inteligibilidade”), acontece teologia. Podemos simplificar que primeiro existe o crer (a vida cristã) e depois surge o reflectir sobre esse crer (a teologia). Mais uma vez, não faz sentido teologia sem fé.
No entanto pode haver, como certamente há, especialistas em religiões ou em história da teologia, por exemplo, que não são crentes. Em alguns contextos, pensemos em países como a Alemanha, onde a teologia católica está presente em universidades estatais, é possível, pelo menos teoricamente, fazer uma carreira académica na teologia sem ter fé. Mas a sanidade mental é capaz de ficar um bocado afectada…
A propósito da ligação teologia-Espírito-vida, vale a pena recordar as palavras de Bento XVI aos alunos da Universidade Gregoriana (Roma), no dia 3 de Novembro de 2006:
“De facto, o objecto imediato da ciência teológico é o próprio Deus, revelado em Jesus Cristo. (…) Não basta porém, conhecer Deus; para podê-lo realmente encontrar, é preciso também amá-lo. O conhecimento deve tornar-se amor. O estudo da Teologia, do Direito Canónico e da História da Igreja não é só conhecimento das proposições da fé na sua formulação histórica, e na sua aplicação prática, mas é sempre também inteligência dessas mesmas, na fé, na esperança e na caridade. Só o Espírito perscruta as profundidades de Deus; portanto, só na escuta do Espírito se pode perscrutar a profundidade da riqueza, da sapiência e da ciência de Deus”.
Qual o conceito fundamental
da teologia?
O conceito fundamental da teologia é a Revelação, que é a autocomunicação de Deus à humanidade e a toda a Criação, Revelação essa que tem um ponto máximo em Jesus Cristo. A Revelação significa que Alguém se revela (Deus) e que alguém acolhe a Revelação (o ser humano). Não só não há um abismo intransponível entre Deus e o ser humano, como este tem capacidade para acolher o divino – o que é negado à partida por ateus e agnósticos. É a partir deste conceito fundamental que surge o método da teologia, chamado precisamente “método da relevação”.
Os métodos, nas ciências, são, por assim dizer, caminhos para construir o conhecimento. Tal como as ciências positivas têm um método (o método experimental, feito de observações, que levam a lançar hipóteses, que são testadas em experiências e que dão origem a teorias), a teologia descobre e constrói o seu conhecimento escutando a Relevação (“auditus fidei”), nomeadamente a Escritura e a Tradição, e inquirindo-a com uma racionalidade crente (“intellectus fidei”), o que implica, por exemplo, o confronto com os outros campos do saber. Convém ressalvar, no entanto, que a linguagem da teologia é analógica, isto é, afirma a semelhança entre Deus e a criatura a partir da enorme diferença. Deus está sempre para além dos nossos conceitos humanos. A humildade tem de ser uma atitude conatural à teologia e aos teólogos.
Há modelos para os teólogos?
Os grandes modelos dos teólogos são os Padres da Igreja, isto é, os grandes mestres dos séculos II a VII (no Ocidente, o último é Isidoro de Sevilha) ou VIII (no Oriente, o último é João Damasceno). Nenhum deles em vida foi reconhecido como teólogo, porque os termos “teólogo” e “teologia”, com o sentido actual, são do século XII, do tempo do professor parisiense Pedro Abelardo.
A Igreja apresenta-os como modelos por causa de algumas características: ortodoxia do seu pensamento; santidade das suas vidas; relação com a Escritura; interesse pela vida do dia-a-dia; confronto com a cultura ambiente, especialmente a prestigiada filosofia grega; riqueza e criatividade de pensamento.
Há oito grandes Padres da Igreja que se destacam de entre os outros: Gregório Magno, Ambrósio de Milão, Agostinho de Hipona e Jerónimo (os chamados “quatro doutores do Ocidente”; escreviam em latim); e João Crisóstomo, Basílio de Cesareia, Gregório de Nazianzo e Atanásio de Alexandria (“quatro doutores do Oriente”; escreviam em grego). Refira-se que nem todos os Padres da Igreja era eclesiásticos. Há leigos entre eles. Mas não há nenhuma mulher.
O que é um doutor da Igreja?
Os doutores da Igreja são homens e mulheres que nas suas pregações e escritos deixaram contributos importante para a fé e reflexão cristã e, consequentemente, para a teologia. O título de doutor é atribuído pelo Papa. Além dos oito referidos no ponto anterior, há mais 25. Ou seja, são 33 ao todo.
Ei-los, os 25 restantes, pela ordem de proclamação papal: Tomás de Aquino; Boaventura de Bagnoregio, Anselmo de Cantuária, Isidoro de Sevilha; Pedro Crisólogo; Leão Magno; Pedro Damião; Bernardo de Claraval; Hilário de Poitiers; Afonso de Ligório; Francisco de Sales; Cirilo de Alexandria; Cirilo de Jerusalém; João Damasceno; Beda, o Venerável; Efrém da Síria; Pedro Canísio; João da Cruz; Roberto Belarmino; Alberto Magno; António de Lisboa; Lourenço de Brindisi; Teresa de Ávila; Catarina de Siena; e Teresa de Lisieux.
Note-se a existência de um português (S.to António). Os três últimos nomeados são mulheres: duas carmelitas (Teresa de Ávila, nomeada por Paulo VI em 1970; e St. Teresinha, nomeada por João Paulo II em 1997) e uma leiga (Catarina de Sena, nomeada por Paulo VI em 1970).
Para que serve hoje a teologia?
Serve, como sempre serviu, para reflectir sobre o que cremos, por que cremos, como cremos, para que cremos.
Na encíclica de 1998 “Fides et Ratio”, de João Paulo II (uma piada: a encíclica ficou também conhecida por “Fisichella et Ratzinger”, por terem sido estes os dois teólogos a dar-lhe forma), apontam-se especialmente duas “tarefas actuais”: por um lado, “renovar metodologias, tendo em vista um serviço mais eficaz à evangelização”; por outro, “manter o olhar fixo sobre a verdade última que lhe foi confiada por meio da Revelação”, sem receio de a apresentar ao mundo no tempo erosivo em que vivemos.
É na teologia, necessariamente, que se pode e deve dar o encontro entre os diversos saberes e racionalidades. A teologia e os teólogos têm, por isso, um papel inquestionável de diálogo (aprendizagem, questionamento, debate, interpelação) com as culturas, as artes, as ciência. Alguém chamou a isso “pastoral da inteligência”.
Respostas de António Jorge
Pires Ferreira, professor de Introdução à Teologia no ISCRA.
Página da responsabilidade do Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro (ISCRA). Sai na 4.ª quarta-feira de cada mês.
