Cinco quadros para cinco décadas de vida artística

Jeremias Bandarra, a comemorar 50 anos de vida artística, escolheu e explicou ao Correio do Vouga cinco dos quadros que de algum modo simbolizam as fases da sua carreira. Estas e outras obras podem ser apreciadss até ao final do mês na Galeria Morgados da Pedricosa, em Aveiro. Aqui ficam as palavras do artista.

“Mulheres no Rossio”, de 1973. É uma das minhas primeiras obras, um tema ligado à cidade. Já na altura não éramos muito realistas, pelo que este traço nem sempre era bem aceite. Vemos palmeiras, salinas, a ponte de São João e duas mulheres da beira-mar. Esta construção de traços e cores era muito moderna para aquela época.

“Meditação”, de 1981. Este quadro representa uma fase mais simbólica. A rapariga está em meditação. Tem um gato, porque os felinos são dos animais que dormem mais. A figura, com gestos orientais, está enquadrada por uma árvore que a cobre, como se toda a cena se envolvesse na meditação. Há aqui alguma carga mística, influência do budismo.

“Barcos na Ria”, de 1983. Influência do construtivismo. Quando olhamos para as coisas não vemos tudo. Vemos as linhas direitas e curvas e a nossa mente constrói a realidade. Captei a magia dos barcos moliceiros sem ter um desenho muito definido. Não se capta tudo, mas capta-se mais do que o que se pode ver. A pintura não é reprodução do real, mas recriação do real.

“Aquário”, de 2002. Esta pintura é o ex-libris da exposição. Temos novamente figuração, mas de uma forma estilizada. A mulher como que emerge de um fundo. À sua frente tem um aquário. Não é um trabalho erótico. Nunca tal pretendi fazer. Mas é muito cromático.

“Composição abstracta”, de 2010. Na minha mais recente fase artística, caí novamente na abstracção e no geometrismo. Não quer dizer que não faça aguarelas e ilustrações. Mas aos 75 anos, quero fazer o que realmente gosto, mesmo que provoque um certo choque. Demoro muito mais tempo a fazer um quadro destes do que um figurativo. Neste género, predominam as figuras geométricas. O equilíbrio em termos de cores, figuras e texturas é muito mais difícil. Ao terminar um quadro como este, ponho-o de lado alguns dias e depois volto a ele para retocar. Ando nisto alguns dias até sentir que a obra está pronta.