Cindo dias em festa com São Gonçalinho

Celebra-se nos próximos dias, de 8 a 12 de Janeiro, a festa de São Gonçalinho, o “santo da beira-mar”

Ao longo de quatro dias, o santo amarantino, dominicano, da primeira século metade do séc. XIII, que também é muito popular no Brasil, onde há três cidades chamadas “São Gonçalo do Amarante”, é invocado através dos actos litúrgicos, mas também com o lançamento das cavacas e de outros rituais populares entre os quais se destaca a secreta “dança dos mancos”.

Conceição Lopes, professora da Universidade de Aveiro que se tem dedicado ao estudo das festividades de São Gonçalo, afirma que se trata de uma festa de “celebração sagrada da humanização do humano”. Os rituais presentes na festa, as rimas, a subversão do tempo significam um corte no dia-a-dia dominado pela “racionalidade lógico-financeira”. “O São Gonçalinho – afir-ma – rompe com o estigma do quotidiano”. Nesta, como noutras festas populares, “os celebrantes, de um modo genuinamente singular, reagem à estigmatização instrumental e mercantil da existência humana”, afirma.

A docente da Universidade de Aveiro destaca nos “rituais de São Gonçalinho” (título de uma comunicação que proferiu nos terceiros encontros de São Gonçalinho, em Novembro passado) o carácter alegre do santo, o ritual das cavacas e as danças.

“Casamenteiro, tocador de viola, dançarino, milagreiro, resolve os encravanços do peito e limpa as verrugas da alma e outras maleitas do corpo. Enfermeiro, médico, criador de vida, contemplativo e “perdoador”, curador de doenças de ossos, no amor e desamor, com o seu sorriso a todos acolhe e num abraço a todos envolve”. Assim é São Gonçalinho, segundo Conceição Lopes. E cita uma quadra: “Brincalhão e galhofeiro / vós fostes das velhas / devoto casamenteiro. // Ó santinho milagroso / dai também às raparigas / um noivinho bem formoso”.

No lançamento das cavacas do alto da capela, “meio de pagar promessas ou encomendar alguma graça”, guardadas durante o ano como símbolo de protecção, Conceição Lopes vê um símbolo da fertilidade. “Talvez que no côvado que o beato São Gonçalo utiliza nas mãos se tenha inspirado também a forma das cavacas. A água é fonte de vida, tal como no útero feminino germina a vida”, afirma. Sobre a “dança dos mancos”, realizada em segredo na capela, a professora afirma: “Tomando nela parte homens saracoteando os corpos em festa, em desequilíbrios possíveis que as supostas dores de ossos e pernas soltas causam, pede-se protecção antecipada contra a doença. A folia é uma das expressões da sagração da humanidade”. E acrescenta mais uns versos: “Neste dia de festança / P’ra ti vai nosso carinho / Hás-de ir connosco na dança / Ó rico São Gonçalinho / Hás-de saltar as fogueiras / à noite no arraial / dançar com velhas gaiteiras / uma dança divinal”.

Na festa genuinamente popular, que o vereador da Cultura de Aveiro, Capão Filipe, gostaria que adquirisse um relevo como o São João tem no do Porto ou o Santo António em Lisboa, sobressai a festa humana, mas não se exclui a dimensão cristã, como se pode ver pelo programa em destaque.

Jorge Pires Ferreira

Destaques do programa das festas

Dia 8, quinta-feira

Actuação das tunas da Universidade de Aveiro, às 21h30.

Dia 9, Sexta-feira

Concerto com o artista Rui Pedro, às 21h30.

Dia 10, sábado (Dia de S. Gonçalinho)

Arruada de manhã e de tarde. Leilão de quadro de Jeremias Bandarra (16h00). Eucaristia (18h00). Concerto com Mónica Sintra (21h30) e fogo de artifício.

Dia 11, Domingo

Desfile dos Bombeiros de Estarreja (10h30). Eucaristia (12h00) e tempo de oração (15h00). Animação com o Grupo Cénico das Barrocas (16h00). Concerto da Banda Filarmónica Gafanhense (21h30) e fogo de artifício.

Dia 12, segunda-feira

Eucaristia pelos falecidos do bairro (10h00). Acolhimento das crianças das escolas na capela (10h30). Arraial (18h30). Entrega do Ramo aos novos mordomos, na capela (20h00). Actuação da Orquestra Espanhola Charleston (21h30). Espetáculo de fogo, som, luz vídeo e água (23h30).

Todos os dias haverá lançamento de cavacas.