Cinquenta olhares sobre o II Concílio do Vaticano

Vaticano II. 50 anos, 50 olhares

Darlei Zanon (organizador)

Paulus

240 páginas

Dos cinco papas conciliares e pós-conciliares (João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II e Bento XVI) a teólogos leigos, como João Duque, de bispos, como D. Jorge Ortiga (Braga) ou D. Virgílio Antunes (Coimbra), a políticos, como Adriano Moreira e Marcelo Rebelo de Sousa, são cinquenta as pessoas que colaboram neste livro sobre o II Concílio do Vaticano, incluindo duas mais ligadas a Aveiro, D. António Marcelino, bispo emérito, e P.e José António Carneiro, vigário da Glória.

Nestes cinquenta textos de duas três ou quatro páginas cada, temos cinquenta formas de olhar para o acontecimento eclesial mais importante do século XX. Uns falam da continuidade ou descontinuidade com a tradição, outros da importância dada à Bíblia, da relação da Igreja como mundo contemporâneo, da liberdade religiosa, das missões, tudo nem sempre com visões concordantes. Afinal, a interpretação não está fechada e os frutos do concílio ainda não amadureceram todos.

Nos próximos tempos, haverá muitas oportunidades para voltar a este livro, mas para já registe-se o testemunho da jornalista Aura Miguel, que, depois de explicar a influência na sua própria vida de alguns documentos conciliares, escreve sobre um participante em especial. “Mas de entre os padres conciliares que conheci, aquele de quem guardo maior recordação é, sem dúvida, D. Manuel de Almeida Trindade”. Vale a pena ler o testemunho sobre o bispo falecido em 2008 e que esteve à frente da Diocese de Aveiro desde o ano de abertura do Concílio, 1962, até 1988.

Escreve Aura Miguel (pág. 193-194): “Era um homem muito inteligente e sereno, interessado e atento e, sobretudo, dotado de grande humanidade. Ficou para a história a sua notável ação e firmeza como bispo, ao defender a Igreja em tempos conturbados (nomeadamente após o 25 de abril de 1974) e também como presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.

Quando o vi pela primeira vez em Fátima, reconheci-o logo (porque era uma referência importante e aparecia na comunicação social…), mas fiquei pasmada com a sua simplicidade e o modo como passou a tratar esta (então) “jovem caloira” jornalista. Desviava sempre o seu percurso para me vir falar e – cheio de paternidade – perguntar por mim e pela minha vida. Às vezes, sentava-se um bocado a conversar, o que era sempre uma experiência extraordinária – ora chamava a minha atenção para a beleza da luz do entardecer em Fátima, ora se interessava pelo livro que eu estava a ler e, com frequência, contava episódios do Concílio Vaticano II… Gostava de sublinhar o clima de liberdade em que os trabalhos se desenrolaram desde o início e dava vários exemplos em como essa liberdade se exprimiu nas intervenções dos padres conciliares, mesmo quando tomaram rumo diferente do inicialmente previsto. Outra das recordações foi vivida logo no primeiro dia do Concílio, a 11 de outubro de 1962. D. Manuel Trindade juntou-se aos cerca de 2200 participantes numa longa fila para poder entrar solemente na Basílica de São Pedro. Só que, para organizar este mega cortejo, tiveram todos de entrar pelas portas dos museus. Então, este bispo português, viu-se dentro daquele espaço, com enormes corredores, rodeados de milhares de obras de arte, muitas delas milenares e arcaicas, peças mudas do passado… e a sua sensação foi meio estranha, porque – concluía ele sorridente – também a Igreja é milenar mas ali estava patente que a Igreja não queria ser objeto de museu, porque aquela multiplicidade fascinante de milhares de bispos, cardeais e patriarcas dos quatro cantos do mundo caminhavam para dar início a um grande acontecimento”.

Esta obra será apresentada ao público em Aveiro no dia 10 de outubro (hoje), às 21h15, no auditório da Biblioteca Municipal.