Clarões de esperança para animar a presença cristã na sociedade

Chega por estes dias às livrarias “Clarões de Esperança”, de Georgino Rocha. Neste livro, o sacerdote da Diocese de Aveiro, doutorado em Teologia Pastoral e professor da Universidade Católica, apresenta relatos da vida, figuras bíblicas, experiências, entrevistas e factos marcantes da Igreja que ajudam a ter uma intervenção social cristã mais acutilante. A obra abre “clareiras por onde se possa caminhar em liberdade e segurança”. É necessária uma atitude “mais audaz da parte dos movimentos sociais cristãos e das instituições”, afirma nesta entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.

CORREIO DO VOUGA – Comecemos pelo princípio. Porquê o título “Clarões de Esperança?”

GEORGINO ROCHA – Escolhi este título por várias razões. A primeira porque condensa e expressa de modo feliz o conteúdo da obra; a segunda, porque comporta uma carga simbólica grande, tal como o ramo da amendoeira que é a primeiro a florescer após os rigores do Inverno; a terceira, porque os clarões da aurora nascente vão iluminando à sua volta e ao longe, fazendo ver pessoas e identificar situações, acordando energias adormecidas e abrindo horizontes de esperança para que a vida tenha mais clareiras por onde se possa caminhar em liberdade e segurança.

Ao rever a obra, dou conta do acerto da escolha. Cada clarão brota de algo que considero significativo: relato da vida real, figura bíblica, pergunta interpelante e pedagógica, experiência de voluntariado, entrevistas e cartas, poemas, factos marcantes da missão da Igreja, textos silenciados com enorme actualidade, acontecimentos políticos e económicos relevantes. O substrato de suporte à narrativa é a cultura humanista e cristã, o protagonista da acção é a pessoa humana e sua relação com as demais, o objectivo principal é o de fazer “falar” vozes caladas e transmitir as mensagens de que são portadoras.

Apresenta casos e modos de intervenção social numa perspectiva positiva. As pessoas precisam de conhecer estes casos para combaterem a resignação?

Para mim, é claro que sim, pois a resignação só se vence pela motivação assertiva que facilite a mudança desse estado de ânimo. E as vias de acesso ao mundo interior da pessoa não são fáceis, embora sejam indispensáveis, porque ninguém é feliz sozinho nem nasce para viver no individualismo solitário. Precisamos todos de ver o positivo da vida e de saber tirar partido das limitações como “de pão para a boca”.

A história de Deus escreve-se nas nossas circunstâncias?

Um dos caminhos mais acessíveis, aliás percorrido maravilhosamente por Jesus Cristo e por outros mestres em humanidade, leva-nos a assumir a situação em que o outro se encontra, a lançar pontes pelas linguagens, a procurar sintonia pelo diálogo, a entrar na reciprocidade da comunicação.

Por isso, o estilo preferido na minha escrita pauta-se normalmente por este realismo de proximidade, por este apego à vida, por esta forma de intervenção. Tento, e muitas vezes consigo, fazer uma leitura positiva da vida das pessoas e do curso dos acontecimentos. É minha intenção clara desvendar o sentido e o alcance de tantas ocorrências. Acredito que são vestígios de Deus, que vai construindo com a humanidade a história da salvação, também deste modo.

Refere modelos bíblicos no seu livro. Quais são?

Toda a Bíblia está recheada de formas de intervenção de Deus em favor do seu povo e das respostas, nem sempre coerentes, que este lhe dá. É nessa progressiva relação que acontece o projecto de salvação que revela o sonho entusiasmante de Deus nos querer como “parceiros” na realização da sua obra, que é boa e bela.

Aprecio muito os modelos bíblicos. Em “Clarões de Esperança” recorro a alguns pela força exemplar que comportam e pelo dinamismo que suscitam para confirmar ou denunciar atitudes, situações ou acontecimentos actuais. Procuro situá-los no seu contexto histórico e cultural para ser fiel àquilo que o texto diz; depois, extraio a mensagem mais consequente para o nosso tempo.

Pode dar-nos exemplos?

Das figuras a que recorro, cito, como exemplo, Nicodemos, o mestre que vai de noite falar com Jesus e, mais tarde, aparece a colaborar com José de Arimateia para que o cadáver de Jesus fosse descido da cruz. Se na ida de noite, se pode encontrar o intelectual que busca a verdade que a sua consciência reclama, na colaboração dada descobre-se o piedoso rito judaico de partir as pernas e abreviar o sofrimento dos condenados. Este rito abre-nos para a urgência de aliviar os milhões de irmãos nossos amarrados ao sofrimento imposto e para a imperiosa necessidade de fazer descer as vítimas da cruz em que estão pregadas.

Há outras figuras que servem de referência e inspiração?

Muitas outras: O centurião e a justiça aos inocentes condenados, a viúva dos dois cêntimos e a confiança radical, Zaqueu e a partilha de bens, Mateus e a alegria da festa, Simeão e a sabedoria da velhice, Ana e a capacidade de comunicação, Maria de Nazaré e o amor que se faz serviço, José e a força construtiva do silêncio. Penso que basta para ilustrar este recurso pedagógico em ordem a transmitir mensagens significativas para a sociedade actual.

Jesus de Nazaré está presente, quer no testemunho das figuras seleccionadas, quer em alguns relatos das comunidades cristãs que nos são transmitidos pelos Evangelhos. Quis apresentá-lo de forma a desenvolver um olhar e uma escuta que provoque um encontro e uma comunhão que geram certezas (Bento XVI, no seu livro mais recente sobre esta temática).

Em Ano Europeu do Voluntariado, o seu livro foca este aspecto?

O voluntariado constitui a principal “linha de força” desta minha obra, quer como dinamismo galvanizador das iniciativas referidas, quer como projectos operativos. Não pretendi fazer a sua publicação para celebrar o Ano Europeu, mas não deixa de ser uma feliz coincidência.

A perspectiva que proponho é bastante coincidente com a recente Nota Pastoral da CEP sobre “Voluntariado e nova Consciência Social” (ver CV de 2 de Março de 2011). Surge como um despertar para a cidadania e responsabilidade social, como actuação em rede para expressar e potenciar a nossa comum humanidade e a convergência de diferentes capacidades, para afirmar a nossa solidariedade subsidiária na cooperação com tantos irmãos nossos que, nas “linhas da frente”, dão o seu melhor em nome de Jesus Cristo pela promoção libertadora de pessoas e povos empobrecidos.

Entre o voluntariado está, naturalmente, o voluntariado missionário. O senhor foi responsável diocesano e, por diversas vezes, trabalhou em “países de missão”…

Dedico uma especial atenção ao voluntariado missionário, designadamente em Angola, e destaco com grande emoção a experiência abnegada de quantos na perseguição nazi arriscaram suas vidas pelos que corriam risco dos campos de concentração. Evoco a coragem dos que, pela sua doação e martírio, constituem a página mais brilhante na agenda negra do holocausto e da guerra civil angolana.

Como avalia a intervenção social dos cristãos e das suas instituições na Diocese de Aveiro?

Os cristãos na Diocese de Aveiro e suas instituições agem num ritmo que pode ser considerados a duas velocidades: o das emergências, que revela uma atitude altamente apreciável, e o da vida corrente que leva a reagir de forma intermitente, sobretudo no que dá origem a males sociais e exige uma intervenção organizada.

Faz falta uma intervenção de fundo, continuada, sólida?

De facto, é quase inexistente, no que diz respeito ao saneamento da opinião pública com informação mais próxima da realidade, à transformação das situações em ordem a um novo habitat digno da condição humana, à qualificação da democracia participativa, à liberdade de ensino e de aprendizagem, à ecologia humana, à refundação do sistema financeiro e à responsabilidade social da economia e a tantas outras causas. Esta verificação, a ser verdadeira, reclama uma atitude mais audaz da parte dos movimentos sociais cristãos e das instituições, designadamente das paróquias e das comissões diocesanas, uma urgência de dar as mãos em parceria solidária a outras organizações cívicas. A meu ver, a formação humana generalizada para a promoção do bem comum, a partir da Doutrina Social de Igreja, surge como um imperativo de consciência.

Há um par de meses, lembrou a um grupo caritativo (os vicentinos) a mensagem social de Bento XVI na visita de Maio passado a Portugal. Pode resumir para os nossos leitores os aspectos mais importantes?

Acho tão rica a mensagem de Bento XVI confiada ao povo português que me “dói a alma” ver a curta vida que teve. Oxalá venha a reassumir a importância que tem, quer no seu estilo e conteúdo, quer no ambiente de coragem e confiança.

De facto dediquei ultimamente três sessões a este reforço: a dos vicentinos, a das equipas de casais e a dos visitadores de doentes. Sei que noutras instâncias foram promovidas iniciativas semelhantes.

Ative-me, somo é normal, a dois encontros: com os homens da cultura e com os agentes de pastoral social. Fazendo um resumo, destaco com insistência o pedido de D. Carlos Azevedo: Renove os apelos de Cristo, bom samaritano; retire-nos do fatalismo que acomoda; convoque-nos para uma compaixão que dignifica, para uma escuta que valoriza, para uma esperança que acompanha. Anime a nossa vontade de sermos servidores-líderes.

E qual foi a resposta do Papa aos pedidos do bispo português?

O Santo Padre, em sintonia com esta mensagem-apelo, responde de modo assertivo exortando a que, em toda a prática sócio-caritativa, se actue com um coração compassivo, à maneira do bom samaritano, vendo a pessoa e a sua situação, carecida de ajuda fraterna.

Destaca no perfil do agente de pastoral os traços de quem, face ao perigo real do esvaziamento da vida espiritual e apostólica, alcançou uma síntese satisfatória da mensagem cristã para servir a Cristo na humanidade e cultiva a unidade de coração, espírito e acção; de quem está consciente das próprias limitações e de que não pode dar soluções a tantos problemas; de quem se propõe servir com determinação o bem comum, não pretendendo qualquer tipo de poder.

Bento XVI dirigiu-se também às instituições da Igreja…

Em relação às instituições da Igreja, Bento XVI afirma ser necessário agirem com identidade bem patente e unidas a todas as outras organizações, melhorarem capacidades e conhecimentos dos responsáveis e beneficiários, e contribuírem para a edificação da civilização do amor já semeada, pelo Espírito Santo, no coração de todo o povo. Recomenda que, impulsionadas pela caridade, a partir da doutrina social da Igreja; recorram a propostas criativas, e formula o voto de que saibam aproveitar com sabedoria os desafios da crise.

Também na acção social, se calhar ainda mais, deve estar presente a esperança e a beleza?

Bento XVI considera de importância vital a formação de novas gerações de líderes que, em espírito de serviço, assumam a nobre missão de promover o bem comum, de configurar a vida social, de saber articular associações e dinâmicas que dêem consistência e vitalidade à sociedade e às suas associações, designadamente ao Estado.

Lembra aos cristãos a urgência de se empenharem na defesa dos direitos humanos, na atenção preocupada com o todo da pessoa, na luta contra os atentados à vida e à família, na aposta conjunta de contribuírem para a construção do bem comum, na animação de projectos de liberdade que potenciem a busca da fraternidade universal.

O Papa deixa-nos o convite-apelo a que, juntos, caminhemos na esperança, servindo por amor todos os feridos da vida, em total doação ao Senhor, o Amigo dos pobres, fazendo da nossa vida um espaço de beleza.