Questões Sociais Está a decorrer o «Ano Europeu de Combate à Pobreza e Exclusão Social». Justifica-se, a propósito, recordar os protagonistas deste combate, tendo em conta os respectivos interesses, deveres e direitos. Numa primeira aproximação, dir-se-á que os pobres e os excluídos são os protagonistas principais; assim é, em princípio, mas é discutível que o sejam na realidade.
Ao longo da Idade Média, até mais ou menos ao século XIX, o combate à pobreza e à exclusão social fazia-se, fundamentalmente, através da entreajuda e de instituições diversas. No século XIX, afirmou-se o Estado repressor dos pobres e excluídos, mas também surgiram as mutualidades, as cooperativas e instituições semelhantes, bem como um esboço do Estado protector. No início do século XX, implanta-se o Estado colectivista na Rússia, estendendo-se depois a vários outros países. Em contraste, surge a ilusão de que o mercado e o respectivo crescimento económico resolveriam os problemas de pobreza e exclusão social. Pela mesma altura, desenvolve-se o Estado social, também desi-gnado «Estado-providência. A partir dos «decénios para o desenvolvimento», promovidos pela Organização das Nações Unidas, torna-se patente que o crescimento económico, embora necessário, não é suficiente para a solução daqueles problemas. As crises surgidas, a partir dos anos setenta, fizeram sentir que o Estado social corria o risco de falência e, por isso, ganhou novo impulso o papel do mercado, com mais ou menos liberalismo económico. Mas, por outro lado, a crise actual pôs em causa o liberalismo económico, e tornou imperiosa a acção reguladora do Estado. Actualmente, para que as economias sejam competitivas, releva-se a importância da competitividade, da produtividade, da inovação e da qualificação do trabalho, incluindo a formação ao longo da vida. De tudo isto, resulta que os protagonistas mais destacados na luta contra a pobreza e exclusão social têm sido as instituições particulares, o Estado (colectivista, social, regulador…), e os sistemas de protecção social (saúde, segurança social, educação…). A luta política, a investigação científica, sobretudo a social, bem como a comunicação social e as opiniões públicas entram fortemente neste combate, defendendo cada uma destas entidades as respectivas posições… e interesses.
Todas elas se consideram mediadoras no combate à pobreza e exclusão. E, através de uma perversão mais ou menos inconsciente, entendem que estes problemas se resolverão na medida em que sejam respeitados os seus pontos de vista e aumentados os meios financeiros a elas destinados. De algum modo, tais mediadoras funcionam em termos análogos aos intermediários comerciais no mundo económico, e acabam por utilizar a pobreza a seu favor; mistificam seus interesses, sob a roupagem do «combate à pobreza e exclusão social…
